ZTOP+ZUMO 10 anos!

Uma visita (rápida) ao museu do Lámen Instantâneo de Yokohama

O Cup Noodles Museum é um monumento a uma invenção nipônica que conquistou o mundo muito antes do Karaokê, do Walkman e do Super Nintendo.

Quando soube que iria para o evento de 25 anos do lançamento do ThinkPad em Yokohama no Japão, o meu grande desejo era de aproveitar o (pouco) tempo livre na cidade para visitar o Shin Yokohama Raumen Museum que é uma espécie de parque temático que reúne os nove melhores chefs de Lámen do Japão em um único local cujo cenário retrata o ambiente urbano do da terra dos nipões no fim da década de 1950:

Mas como ensinou o meu colega, chapa e mentor de profissão Niso Levitas — “Trabalho primeiro, vagabundear depois!” — o Raumen Museum ficava meio longe do local do evento e tomaria muitas horas, de modo que tive que desistir dessa idéia e optar pelo “plano B” que seria vistar o Cup Noodles Museum que ficava praticamente do lado do hotel (ou ~10 min de caminhada) no Complexo Minato Mirai 21.

E porque um copinho de plástico cheio de macarrão seco com um monte de coisinhas igualmente secas por cima merece tamanho monumento? E porque um post desses neste ztop+zumo?

De um certo modo, o fundador da Nissin Foods e inventor do lámen instantâneo Momofuku Ando (1910~2007) foi um grande inovador do mesmo calibre de Akio Morita ou até mesmo de Steve Jobs no sentido que todos eles acreditavam no poder da observação e da sua própria intuição para conceber produtos que, de um jeito ou de outro, revolucionaram o nosso mundo.

No caso de Ando, reza a lenda que logo após a segunda grande guerra, ele observou uma longa fila de pessoas que esperavam no frio na frente de uma barraquinha pela oportunidade de comprar e consumir uma tijela de lámen fresco, o que lhe abriu os olhos para uma grande demanda reprimida e sua grande visão de que “a paz só estará garantida quando não se está com fome“.

Nessa mesma época, o governo japonês incentivava o consumo de trigo (fornecido pelos EUA) o que, na época, se resumia a pães e biscoitos que os japoneses não estavam acostumados a comer, ao contrário do macarrão de lámen que poderia ser feito com a mesma matéria prima.

Daí nasceu a idéia de criar um algum tipo de “lámen instantâneo” que pudesse ser facilmente fabricado, armazenado e distribuído,. Fora isso ele deveria ser barato e facilmente preparado em casa adicionando apenas água quente.

E como todo inovador do Vale do Silício, ando montou na sua garagem numa casinha no fundo do seu quintal, uma cozinha experimental onde passou um ano tentando criar o produto que atendesse as suas especificações e lançou em 1958 o Chikin Ramen que, na época não atendeu o seu desejo inicial de ser uma comida barata, mas conquistou o mercado por atender outra demanda que era a sua rapidez no preparo, algo valioso para o trabalhador japonês da época que muitas vezes mal tinha 20 minutos de almoço.

E como já disse a nossa colega Dani Braun em seu blog Braun CafeO Miojo também salvou a vida de muitos estudantes, solteiros e baladeiros em geral. Juntando a fome [a preguiça e a falta de grana] com a vontade de comer, o Brasil é o décimo maior consumidor de Miojo do mundo.

Ztop in a Box:

Segundo o site da Nissin Foods do Brasil o primeiro macarrão instantâneo chegou no Brasil em 1965 com a marca Miojo Macamen, só que, o que muitos não sabem, é que esse produto não tinha nada a ver com a empresa de Ando e sim que ele foi criado no Brasil por um empresário chinês que criou o nome Miojo a partir do nome de um concorrente da Nissin da época — a Myojo Foods  — simplesmente trocando o a letra “y” pelo “i”:

Reza a lenda que quem fornecia o saquinho de tempero para o Miojo Alimentos era a Ajinomoto que, virou sócia da empresa em 1972 e depois convidou a Nissin para comprar a parte da Miojo em 1975, formando assim a Nissin-Ajinomoto Alimentos Ltda. Em 1981 foi aberta a primeira fábrica da Nissin no Brasil (e a segunda fora do Japão) na cidade de Ibiúna SP e…

… em 2015, a Nissin pagou R$ 1 bilhão pela parte da Ajinomoto na sociedade, tornando-se assim a única dona da marca Miojo (que por aqui ainda é sinônimo de macarrão instantâneo) e, de quebra, da maior fatia de mercado desse produto no Brasil.

Aqui uma visão “moderna” em da história de Ando produzida pela própria Nissin em julho de 2016 como parte de uma estratégia de campanha batizada de Samurai Noodles que será usada em diversos projetos para celebrar os 60 anos da empresa em 2018 (para entender alguma coisa, note que este que esse vídeo possui opção de legenda em inglês):

Mas voltando ao que interessa — aberto em 2011 o museu de Yokohama é na verdade o segundo Cup Noodles Museum já que o primeiro fica na cidade de Ikeda prefeitura de Osaka, local onde o lámen instantâneo foi criado.

Para quem esperava algo espalhafatoso como um prédio na forma de um copo branco, a filial de Yokohama é um cubo de desenho simples e funcional que até lembra a caixa forte do Tio Patinhas…

Porém o seu interior é bastante amplo onde os tons de branco predominam dentro um visual bastante limpo, leve e arejado que passa uma agradável sensação de bem estar.

O edifício possui cinco andares, sendo que no térreo/primeiro andar fica apenas a recepção/bilheteria, a lojinha do museu e um imenso hall de entrada pensado para abrigar um grande número de pessoas, o que faz sentido já que boa parte dos seus visitantes são grupos de turistas e mais ainda de estudantes de diversas idades, cuja presença pode ser notada em diversas partes do museu.

No segundo andar fica a parte mais “histórica” do Museu dedicada a memória do fundador da empresa Momofuku Ando, onde os destaques ficam por conta do Instant Noodles History Cube uma imensa vitrine que apresenta de forma cronológica todos os produtos lançados pela Nissin…

… desde a sua fundação em 1958…

… o incluindo o primeiro Chikin Ramen:

Nos dias de hoje, estima-se que só no Japão cerca de 800 novos tipos de lámen instantâneo são lançados a cada ano. A linha completa dos produtos da casa (que vai de macarrão fresco até confeitos) podem ser conferidos aqui.

Fora isso, a gente meio que se perde no meio de tantas embalagens — principalmente nós brazucas que não temos nenhuma referência visual e/ou lembrança afetiva de 99,99% dos produtos apresentados — apesar que podemos encontrar exemplos bem curiosos como essa versão mini com brinquedo incluso, que parece ser algo até lírico e inocente…

… se comparado com versões mais recentes como essa edição especial do Cup Noodle x Gunpla que vinha com um exclusivo mini kit Gundan para montar, lançado originalmente em 2009 mas foi que foi reeditado diversas vezes com outros modelos de Gundam.

Outro produto bem peculiar é esse Cup Noodle Skeleton lançado em 1999 que mata a curiosidade daqueles interessados em ver como o macarrão fica pronto depois de receber a água quente.

Outros exemplos são mais banais como essa edição comemorativa de 1995 que celebrou as 10 bilhões de unidades vendidas só no Japão:

Outra atração desse andar é a reprodução da garagem casinha onde Ando inventou o seu macarrão instantâneo. Só que na pressa eu passei batido por essa exposição de modo que essas imagens foram retiradas do site do museu:

Segundo a empresa, o novo produto deveria atender as seguintes características:  Ele deveria ter tão gostoso ao ponto das pessoas nunca se cansarem do seu sabor, não deveria ser perecível, permitindo assim ser armazenado no estoque da cozinha, deveria ser simples e rápido de ser preparado, deveria ser barato e, finalmente, ser limpo e seguro para o consumo.

Apesar dele ter esses objetivos bem claros na sua cabeça, ele não tinha a mínima idéia de como alcançá-los já que ele não era nenhum profissional na arte de fazer macarrão, de modo que o desenvolvimento foi baseado em muita determinação e tentativa-e-erro até encontrar a melhor solução.

De longe, seu maior desafio foi de criar uma processo capaz de preservar a massa de maneira confiável (na temperatura) ambiente de um modo que ela pudesse ser reconstituída em poucos minutos apenas com a adição de água.

A grande sacada veio na hora em que Ando viu sua esposa na cozinha preparando tempurá, e notou que o óleo quente expulsava a umidade da massa de farinha soltando bolhas na panela. Inspirado nessa idéia, ele fritou uma porção de macarrão cozido em óleo quente resultando num bloco de massa quase que completamente desidratada, que não se deteriorava mesmo depois de muito tempo.

Esse processo também resolveu o problema da conveniência, já que as microcavidades deixadas pelo processo de fritura na superfície da massa, facilitava a penetração da água durante o processo de reidratação, fazendo com que a mesma voltasse para a sua maciez original em pouquíssimo tempo.

Se o segundo andar é dedicado a história, o terceiro andar do museu é dedicado as atividades lúdicas que ensinam como é feito o macarrão instantâneo.

De fato, esse espaço é dominado por duas grandes oficinas: A primeira delas é o Chicken Ramen Factory que é uma atividade paga voltado para grupos de pessoas/alunos que aprendem a fazer o macarrão instantâneo, desde o início juntando os ingredientes e amassando a massa até desidratá-lo por meio de fritura. Trata-se de uma atividade paga e que deve ser reservada com antecedência:

Outra atividade mais simples e direta é o My CupNoodles Factory onde o visitante pode criar um Cup Noodle para chamar de seu.

Para isso, o visitante compra um copinho em branco numa vending machine na entrada e decora o mesmo nas diversas mesas disponíveis no local.

Feito isso você entrega o seu copinho para um atendente que coloca uma porção de massa no mesmo…

… que depois é coberto com o pó de sopa (quatro opções) e até quatro das 12 acompanhamentos disponíveis (ovo, cebolinha, camarão, etc.) de acordo com o gosto de cada cliente.

Feito isso, o copo é selado e lacrado com filme plástico (como o produto de linha) e, finalmente embalado numa curiosa bolsa  de ar que protege o copo de possiveis impactos e amassos na viagem de volta.

Já no quarto andar fica um pequeno parque temático para crianças chamado Cup Noodles Park (duh!) mais voltado para o público com idade pré-escolar…

… e ao lado fica o Noodles Bazaar — uma praça de alimentação que explora a cultura do macarrão…

… em diversos países da região da Ásia-Pacífico e até da europa:

O ambiente do local é estilizado na forma de diversos cenários urbanos à noite que, na teoria, estimula a vontade de comer lámen. O meu palpite é que esse visual foi meio que inspirado na praça de alimentação do Shin Yokohama Raumen Museum.

A propósito, essas imagens foram feitas com a câmera traseira do novo Zenfone 4 da Asus cujo desempenho em ambientes com pouca luz é realmente notável:

Mas como estava no Japão e no museu do Cup Noodles eu preferi abrir mão dessas opções exóticas e preferi ficar no clássico, ou seja, fui pegar algo na barraquinha do Chikin Ramen:

Para pegar qualquer prato, o procedimento é muito parecido com o de qualquer restaurante pequeno/cantina/refeitório vulgar aqui no Japão, ou seja, você faz sua escolha e compra um ticket numa espécie de vending machine (também tematizada com marcas de uso e tudo) e entrega para o cozinheiro que monta o prato na sua frente.

Eu particularmente achei muito barato uma porção + dois acompanhamentos por apenas 150 ienes (~R$ 4,20) — metade do valor cobrado nas outras opções — mas também não podemos nos esquecer que se trata de macarrão instantâneo, né?

Mas foi ai que caiu a ficha já que essa barraquinha só serve Chikin Rámen na versão “mini”! O meu palpite é que ela é oferecida mais para atender aquelas crianças que não queiram se aventurar nas opções exóticas de outros países.

Já o rámen em si até que não estava de todo ruim (para um Cup Noodle). Mas como minha necessidade diária de vitamina alimentar excede a de uma criança, me rebelei contra o sistema e repeti a dose!

Entre as opções de sobremesa, o bazaar oferecia a tradicional raspadinha japonesa, chá com pobá e o notório sorvete Cup Noodle no sabor original (molho se soja) ou curry que, por sinal, só é vendido no museu.

E é claro que fui na opção mais picante:

O que me chamou a atenção dessa sobremesa é que ela vem com os mesmos acompanhamentos do Cup Noodle, ou seja, cebolinha, ovo, carne e até camarãozinho!

Isso pode parecer estranho mas como esses ingredientes estão desidratados, eles tem uma textura que lembra isopor e o seu sabor é meio que mascarado pelo do sorvete que é doce e que lembra mais um sorvete de creme. Apesar de que depois do consumo, ele realmente deixa um gostinho levemente picante na boca.

Dizem que a idéia original era de misturar sorvete com o macarrão, mas depois de diversos testes com várias receitas o sorvete saborizado foi considerado a opção mais palatável e menos bizarra de todas.

Na saída do bazaar ainda existe um amplo terraço com uma bela vista para a baia de Tóquio onde os visitantes podem sentar, relaxar e até pensar um pouco se aquele sorvete com camarãozinho tem mesmo sabor de Cup Noodles ou não.

Na saída do museu, parada obrigatória na lojinha onde podemos encontrar toda aquela parafernália que a gente vê em todo estabelecimento deste tipo como camisetas, bonecos, brinquedos, livros, cartões, adesivos, material de papelaria, etc. e é claro um monte de lámen, como esse kit de tigela + pacote de Chickin Ramen original…

… ou o Cup Noodle Refill baseado num copo não descartável que aceita “recargas” de macarrão vendidas em sachês individuais:

Também é possível adquirir itens que não são normalmente oferecidos no varejo como o Ramen de Sky um mini Cup Noodle servido na primeira classe, classe executiva e Premium Economy dos vôos da JAL:

Fora isso, também estão a venda itens que não levam macarrão na receita, como diversos tipos de manju (um bolinho doce com recheio de pasta de azuki) muito popular no Japão:

Para quem não sabe, no Japão quando alguém visita um local turístico é comum ela trazer algum tipo de lembrancinha (omiyague) para o pessoal de casa e até mesmo do trabalho…

…  de modo que esse tipo de presente (que pode ser facilmente dividido entre várias pessoas) é muito apreciado:

No meu caso eu optei por adquirir um carrinho de ferro “Tomica” da Takara Tomy (que seria o equivalente japonês do Hot Wheels) que na sua série Dream Tomica possui o CupNoodle-móvel — Upalelê

No fim das contas, vale a visita? — Eu diria que isso depende, já que como se trata de um museu que fala mais sobre idéias do que mostrar um monte de coisas velhas por trás de uma vitrine, a experiência do passeio pode variar de acordo com o tempo disponível e o que o visitante está realmente disposto fazer no local, seja apenas para dar uma passada de bobeira, comer algo e tirar foto de celular com o Mega Cup Noodle e seu mascote Hiyoko-chan (meu caso), ou para passar horas no local com uma agenda pré programada — caso dos grupos de estudantes.

Mais informações sobre o museu podem ser encontradas aqui.

Disclaimer: Mario Nagano viajou para Yokohama a convite da Lenovo Brasil. As fotos bacanas, observações inteligentes e programas de índio são dele mesmo.

Bonus Track:

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.