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Retrotech: Adaptando lentes Contax Rangefinder numa Digital

Apesar de não ser simples, é possível fazer um adaptador para lente Contax Rangefinder em casa por bem menos do que comprar um na loja.

Intro e Outros:

Talvez um dos recursos mais bacanas oferecidos pelas câmeras mirrorless (como a Sony NEX, Olympus/Panasonic Micro Four Thrids ou Fuji FX) seja a possibilidade de utilizar lentes antigas por meio de adaptadores o que abre um mundo de possibilidades, tanto para aqueles que curtem fotografia retrô (mas não tem saco de manipular filme) quanto aqueles que tem acesso a essas lentes antigas de foco manual e gostariam de reaproveitá-las nas suas digitais:

Fora isso, o uso de adaptadores permite o acesso à uma grande variedade de lentes antigas/usadas por um custo relativamente baixo, apesar de que as grandes pechinchas estão se tornando cada vez mais raras devido a sua popularidade entre os videomakers, já que o foco manual possibilita um maior controle sobre a cena e o visual que algumas delas produzem (a chamada “personalidade” da lente) também é algo que muitos usuários apreciam.

Mas fato é que depois de algum tempo brincando com essa tecnologia, a gente começa a pegar gosto pela coisa e começa a inventar doideiras por conta própria…

… sendo que com um pouco de paciência, conseguimos obter resultados até que bem interessantes para algo fabricado a mais de meio século atrás:

De fato, já existem tribos de malucos/makers na web cujo hobby é adaptar lentes não convencionais em câmeras digitais, sendo que alguns deles se reúnem aqui ou aqui.

E como já disse Douglas Adams, se um nerd é uma pessoa que usa o telefone para ligar para outras pessoas para falar sobre telefones, o adaptador de lentes é aquele que adapta lentes pelo prazer de adaptar lentes.

Acho que ainda não cheguei neste ponto, mas reconheço que orbito perigosamente perto dessa fronteira.

Zeiss Sonnar 5 cm: Uma lente bela e complicada

Entre as lentes mais difíceis de adaptar numa câmera convencional, um grupo que se destaca são as lentes do tipo Sonnar 5cm f1.2/f1.5 criadas originalmente para as Contax Rangefinder

… cujo movimento da lente/ajuste do foco fica na câmera e não na objetiva — ou seja — ela não foca se não estiver encaixada no corpo. E para complicar ainda mais as coisas, seu engate é do tipo baioneta cujo ponto de encaixe fica bem dentro do anel de foco (o chamado “inner mount“).

Esses fatores são uma faca de dois legumes já que, se de um lado a dificuldade para usar essas lentes em outras câmeras faz com que sua oferta no mercado seja ampla e seu preço relativamente baixo (em especial as cópias russas como as Jupiter-3 e Jupiter-8), do outro lado os adaptadores do tipo inner mount oferecidos no mercado tem que integrar o mecanismo de foco da câmera Contax no anel adaptador como os modelos da Kipon.

Só que devido a complexidade da sua construção, ele é um acessório relativamente obscenamente caro — algo como US$ 456 no Amazon.com.

Outra alternativa são pequenas empresas/particulares que fabricam e vendem esse tipo de adaptador em pequenas quantidades como o de Amedeo Muscelli. Já nos anos 1950, o fabricante japonês Orion (que também produzia as câmeras Miranda) chegou a vender um adaptador Contax RF para Leica LTM mas hoje eles são mais antiguidades raras (e caras) do que um produto propriamente dito.

If there’s a will there’s a way…

Mas como a necessidade é a mãe da invenção, pesquisando na Web você encontra diversos relatos de adaptadores caseiros sendo que alguns chutam o balde e simplesmente colam a lente direto no adaptador (o que pode ser válido se você tiver apenas uma lente, enquanto que outros brincam de Frankenstein extraindo o encaixe da lente de um corpo de câmera Kiev (cópia russa da Contax II/III) colando-o depois num anel adaptador, como neste e neste exemplo.

De fato, o projeto acima me inspirou a criar o meu próprio adaptador Frankenstein a partir de uma sucata de Contax II que tinha aqui em casa (viu só porque japonês não joga nada fora?) …

… e até que ele funciona bem, diga-se de passagem:

Mas como todo produto na versão 1.0, a gente dá um monte de cabeçadas e, no fim das contas, sempre acha que poderia ter feito um trabalho melhor:

Foi ai que tomei a decisão de repetir essa façanha e criar uma versão melhorada desse adaptador.

Adaptador 2.0

Um projeto que particularmente me chamou a atenção foi este publicado no Forum MFlenses onde o usuário std também pegou um encaixe de lente de uma câmera Kiev, cortou umas aparas e encaixou o mesmo num adaptador Nikon(S) para Micro 4/3:

Ao contrário do modelo da Kipon, esse acessório é relativamente barato (~US$ 20 nos EUA) e até meio desprezado porque — na sua forma original — ele só funciona com as lentes para Contax RF/Nikon S com engate externo (o chamado “outer mount“) ou seja, ele não tem o encaixe interno (inner mount) para as lentes normais e grande angulares o que faz dele uma “meia-solução” (boo!)

Mas para mim, um grande detalhe que dessa montagem revelou é que, ao remover seu engate cromado, a altura da sua base (à esquerda) tem a distância exata do registro das lentes Contax para Micro Four Thirds.

Baseado nisso minha teoria é que essa adaptação poderia ser implementada em outros sistemas que aceitem esse tipo de adaptador como NEX E-Mount, Nikon 1, Fuji FX, etc.

Assim, aproveitando que o Henrique estava em Vegas para cobrir a CES 2017 eu pedi que ele me trouxesse um deles pela bagatela de US$ 19,95:

Essa parte foi até que fácil, já que a difícil mesmo foi encontrar uma câmera Contax II/III ou Kiev quebrada por um  preço razoável.

Procurando no ML, encontrei diversas Kievs e até algumas Contax só que todas (alegadamente) funcionando na faixa de preço entre R$ 280~1.950 — o que para mim estava fora de questão.

Mas procurando mais a fundo no site eu encontrei exatamente o que queria — uma Contax IIIa — por um preço não exatamente barato, mas que atendia as minhas necessidades. E como elas não são fabricadas a mais de 60 anos, era meio que pegar  ou largar.

Lançada em 1950 a Contax IIIa é um curioso filho da Guerra Fria já que no fim da segunda grande guerra, os americanos evacuaram a parte administrativa da Carl Zeiss da sua sede em Jena para Stuttgart deixando para trás as fábricas de Jena e Dresden para os Russos, que tomaram as linhas de produção da Contax II/III e as levaram de volta para a União Soviética onde teve início a fabricação das câmeras Kiev, inicialmente com peças e lentes originais da Zeiss!

Já no lado capitalista em Suttgart, como o pessoal da Zeiss teria que recriar a produção da Contax a partir do zero, eles praticamente desenharam uma câmera nova…

… o que fica bem visível quando desmontamos a mesma:

Nisso inclui o anel do engate da lente, que também foi completamente redesenhado, sendo que ao invés da placa de metal retangular que fixava a lente no corpo da câmera no modelo original, neste caso a nova peça é fixada por uma aba menor e de formato mais circular:

Apesar disso, algumas medidas cruciais — como a distância do registro da lente — não mudaram, já que essa câmera é compatível com as lentes para Contax produzidas antes da guerra.

Porém, a minha maior surpresa foi descobrir que o diâmetro dessa aba, bate com o espaço ocupado pelo anel original do adaptador o que levanta suspeitas que o projetista desse adaptador deve ter usado essa peça da Contax IIa/IIIa como referência para tirar suas medidas. Infelizmente, os furos de fixação do anel original não batem.

Mas para não dizer que vida de adaptador de lentes é moleza, essa peça tem um tubo inferior que abriga a rosca do mecanismo de foco da lente que tem um comprimento de 22 mm…

… que ultrapassa — e muito — o espaço interno do adaptador (8 mm) o que faz com que tenhamos que reduzir o comprimento desse tubo para assentá-lo perfeitamente na base.

Mas como fazer isso?

Em teoria, a maneira mais simples de fazer isso seria levar essa peça para uma empresa de usinagem de precisão, o que pode ser um serviço meio complexo e não muito barato, em especial se levarmos em consideração que o anel de foco da Contax é formado por duas peças (ou mais exatamente dois tubos unidos por uma rosca interna/externa) que deveriam ser usinadas ao mesmo tempo.

Mas como já passei por esse dilema no meu adaptador 1.0 eu bolei uma solução caseira que dá trabalho, mas funciona que é uma beleza.

Rala e rola

A idéia que tive foi usar uma pedra de afiar facas da Carborundum, sendo que este modelo em especial possui duas faces, uma com granulometria grossa para desbaste de material e outra fina para acabamento.

Ai o que fiz foi umedecer o lado de desbaste da pedra por alguns minutos, colocar a mesma numa bandeja com água para limpar a pedra e lubrificá-la durante o processo de desbaste…

… e iniciar o processo de “ralar” a peça aplicando uma pressão uniforme em todo o anel para que ele se desgaste por igual:

Depois de algum tempo, podemos notar o acúmulo de um pó dourado que é na realidade uma liga de bronze, material usado na fabricação do anel da Contax:

Trabalhando num ritmo constante e sem muita afobação é possível retirar de 3 a 4 mm de material em torno de uma hora. Mas o ideal é que o usuário faça algumas pausas para descansar o braço, trocar a água da bandeja e limpar a pedra dos resíduos de metal.

Também é interessante checar o progresso do trabalho com o uso de um paquímetro apesar de que, neste caso, o comprimento do tubo não é um fator tão crítico quanto em outras montagens já que a referência de distância será o anel da flange que deve encostar na parte de cima do anel adaptador.

Embaixo podemos ver como os tubos do mecanismo de foco (e sua exótica rosca dentada) são desbastadas de maneira uniforme:

De qualquer modo, depois de umas três horas no rala e rola, nos últimos décimos de milímetro eu interrompia o processo constantemente para verificar o ponto de foco no infinito montando esse anel com a objetiva na câmera até chegar no ponto desejado:

E como podemos ver que o encaixe ficou realmente perfeito:

Depois disso basta colar o anel da Contax no adaptador usando Araldite Profissional (90 min de tempo de manuseio, 24 horas para secagem completa) chegando periodicamente o ponto de foco da lente no infinito com a câmera e, no dia seguinte, ele está pronto para uso.

Note que além das lentes Jupiter e Sonnar esse adaptador também funciona com as legendárias lentes para Nikon Rangefinder como essa Nikkor-H.C 1:2 5 cm.

O maior cuidado que o usuário deve ter com esse adaptador é que ao contrario das Contax, o anel de foco não possui mais o limitador de movimento que impede que a lente passe da marca de 1 metro, ou seja, sem esse ele é possível focar a distancias até menores, mas ao fazer isso corre-se o risco da rosca do anel de foco começar sair do adaptador e até escapar por completo e ir para o chão junto com sua preciosa lente.

Aqui algumas fotos feitas com a Nikkor-H.C 1:2 5 cm:

 

Considerações finais:

Na ponta do lápis, esse adaptador me custou aproximadamente R$ 250 o que, novamente, não é um precinho de banana.

Mas se levarmos em consideração que um adaptador pronto sai lá fora pela bagatela de 200 a 450 doletas (~R$ 500 a 1.125 sem contar frete e impostos) e/ou o que se cobra por aqui por um adaptador comum para PK, FD ou M42 o meu novo adaptador para Contax não saiu tão caro, mas que poderia até ser bem menor se tivesse conseguido uma sucata de Contax por um preço menor ou até mesmo de graça.

E no fim das contas, vale todo esse esforço? Eu diria que sim já que, como já dissemos antes, muitas dessas lentes para Contax/Kiev/Nikon-S podem ser encontradas por preços bem atraentes, não porque elas sejam ruins e sim porque elas não são facilmente usáveis nos dias de hoje.

E como pudemos ver nas fotos com a Nikkor H-C trata-se de uma pequena jóia, que se não fosse pelo adaptador ela não passaria de um bibelô pegando poeira na estante de algum fotógrafo ou colecionador.

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.