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Vida real: a dificuldade de encontrar um bom PC

Quando o Windows 8 foi lançado, dois meses atrás, fiz uma conta rápida para ver as ofertas dos fabricantes de computadores – a maioria delas era de notebooks, com poucas ofertas de desktops. A minha previsão diz que o desktop ainda tem um tempo de vida, mas está fadado a ser substituído pelos tudo-em-um. Semana passada precisei comprar um PC de mesa de última hora, e quem disse que eu encontrei com facilidade no varejo?

Explico: minha sogra herdou meu PC antigo, um Lenovo (ainda com marca IBM no gabinete) comprado em 2006. Era um Pentium 4 com 8 GB de RAM, 500 GB de HD, placa de vídeo (uma Radeon qualquer-coisa) e de som (Creative Labs) ligado a um monitor Samsung de 21″ wide, rodando Windows 7 Professional.

Essa máquina precisava de manutenção semestral (oi Nagano!), pois tinha um sistema de ventilação com grade em colmeia na parte frontal do gabintete e juntava pó tanto nessa grade quanto no cooler de maneira impressionante. Era só começar a fazer um barulho maior, um “vruuuum” mais forte para abrir o PC, limpar a sujeira, reforçar a pasta térmica no processador, dar uma geral no resto da limpeza, fechar e esperar voltar o problema alguns meses depois.

Só que três semanas atrás a situação piorou: o PC não enviava nenhum sinal de imagem para o monitor. Troquei o cabo e nada. Decidi tirar a placa de vídeo e conectar a tela direto na placa-mãe. O problema parecia ter ido embora, mas voltou na quinta-feira passada, e o PC não funcionava.

Os backups estavam quase em dia, e a sogra (oi Cleide!) me convocou para ir em busca de um novo desktop. Orçamento: até R$ 1.200, e era urgente encontrar um novo desktop – iríamos manter o monitor, e não queríamos nada com Windows 8.

Primeira coisa a fazer foi pesquisar na web. Olhei no Extra, no Walmart e no Ponto Frio. Nada interessante: a maioria das “ofertas” online até era interessante no preço, mas ao ver a configuração: Linux como sistema operacional (leia-se “pirateie o Windows por conta e risco“) + Intel Core i3 ou i5. Ou qualquer coisa com Intel Atom ou Celeron ou Pentium D e Windows 7 Starter Edition, poucas ofertas com AMD.

Não, nada disso me interessou. E fomos em busca do mundo real na sexta-feira à tarde, com a meta de ir a dois hipermercados e, se nada desse certo, correr para o shopping e rezar por uma boa oferta.

O destino inicial foi o Extra da Ricardo Jafet, aqui em São Paulo. Os computadores estão bem na entrada da loja, mas o grande destaque são os notebooks (óbvio). Essa primeira parada foi quase igual à experiência online: todos os desktops com Atom ou Celeron e Windows 7 Starter Edition, com marcas “de supermercado” (nada de Positivo, Megaware ou Qbex, por exemplo).

Não, não vou comprar nada com limitações de software por conta do preço. Nessa loja a vendedora, simpática e sem nenhum conhecimento técnico, disse que não iríamos encontrar nada mesmo, mas que era bom procurar na loja de games (!) ao lado do mercado. “Mas não quer mesmo um notebook?”, perguntou a moça. “Não, obrigado”.

Vale notar que o hipermercado não tinha nenhuma oferta de máquinas all-in-one e não vi também nenhum notebook com Windows 8. Como a loja de games não tinha, claro, desktops, seguimos para o Carrefour, na mesma avenida. Lá, o hardware também estava na entrada da loja, com diversos notebooks e até uma ou outra oferta com Windows 8. E oba,uma oferta interessante no meio dos Starter Edition: duas máquinas com Intel Core i5 (não dizia a geração), Windows 7 Home Basic, 8 GB de RAM por R$ 999.

Valia a pena? Sim. Mas a loja só tinha os modelos de mostruário em estado duvidoso, e o outro Carrefour mais próximo com estoque era ou no Jabaquara ou no shopping Center Norte (inviáveis de chegar com o trânsito de uma sexta-feira chuvosa).

O vendedor aqui, pelo menos, mostrou ser mais entendido no tema, mas voltou a perguntar: “não quer um notebook?”. Além das marcas desconhecidas, a bancada do Carrefour tinha também um desktop slim da HP indicado na placa como Intel Core i5, mas com adesivo “Pentium”  no gabinete (e custava mais de R$ 1.500).

Já estávamos na rua desde as 17h, e eram 19h já. “Vamos até a Kalunga tentar a sorte?”, perguntou dona Cleide. “Lá no shopping Mooca?”. Em último caso, sem encontrar algo, daria para comer algo.

Na Kalunga, duas opções apenas de desktops: uma variante do HP slim, com a mesma disparidade entre gabinete (Pentium) e indicação de preço (Core i5), descartada de cara por conta do preço alto (também acima de R$ 1.500), e um gabinete da Lenovo (série H) com Windows 7 Home Basic, Intel Core i3 (de segunda geração), 2 GB de RAM, 500 GB de HD, teclado, mouse e caixas-de som por R$ 1.299 (com um descontinho para pagamento à vista). Era interessante, e no fim das contas, acabou sendo a escolha dela.

Acabamos levando a máquina que estava no mostruário, ainda com plásticos de proteção e que, segundo o pessoal da loja, tinha ido para a bancada naquele dia mesmo. “Nem foi ligada ainda”, afirmou o perdido vendedor. O design do gabinete (não que PCs sejam… sexy) é bem bonitinho, por sinal:

Vale ressaltar que a única boa experiência com vendedores nessa busca pelo desktop foi no Carrefour, com um especialista que não tentou empurrar qualquer porcaria.

Na Kalunga, o garoto bem-intencionado (18 anos? menos?) demorou a encontrar o preço do computador, tentou oferecer uma impressora de mais de R$ 800 no pacote e outra com Wi-Fi (não era necessário) e ainda esqueceu de colocar o cabo de força na caixa de transporte (acabei usando a do PC antigo). A máquina nova tem direito a upgrade para o Windows 8, mas não vou forçar a adoção de uma interface nova – e sem toque – para meus sogros.

O bônus da noite foi ao instalar o PC novo: a máquina estava inteira e funcional, com um pequeno fator omitido pela Kalunga: o PC tinha sido usado na loja e estava com uma senha de administrador. Argh.

A solução foi entrar no sistema de recuperação do PC (o Lenovo vem com uma partição de recuperação de dados) e reformatar a máquina do zero, baixar 78 atualizações do Windows 7 e instalar o básico necessário. Tirando isso, valeu a compra e a sogra (e o sogro) estão felizes da vida com o computador novo. Ainda preciso trazer de volta uns backups de fotos e músicas que ficaram no outro HD, mas tudo está funcional – e espero que o Lenovo dure por mais uns 6 anos, como seu antecessor.

Foi interessante ver também a falta de oferta de novos computadores com Windows 8 no varejo. Apesar da proximidade do Natal, as lojas tinham poucas opções, todas no formato notebook, e os vendedores pareceram ignorar a existência do novo sistema operacional da Microsoft.

Na Kalunga, em um grande shopping lotado para compras de fim de ano, estavam lá perdidas duas máquinas apenas: uma da HP e uma da Samsung. Nada de tablets ou híbridos – e muito menos desktops. É, pelo visto não será o Natal do Windows 8 não – pelo menos no varejo mais popular. Não fui até as Casas Bahia para checar (basicamente porque não compro ou indico nada da Positivo).

Isso tudo leva a outra conclusão: desktop de varejo, no geral, significa configuração básica e ruim, que vai levar a uma compra nova em pelo menos um ano. Fãs de desktops (sim, eles existem em games e alto desempenho) precisam continuar comprando componentes e montando (e remontando) seus PCs por conta própria, já que os grandes fabricantes não estão nem aí para vocês.

 

 

 

 

 

Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin