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Canon: projeto Tsuzuri restaura o passado

Parceria entre a Canon e a Kyoto Culture Association cria reproduções de alta qualidade de antigas obras de arte que, de tão preciosas e frágeis, raramente são vistas pelo público.

Quando o assunto são apoios culturais existem aquelas companhias que estão mais preocupados em divulgar sua marca do que com o projeto em si, enquanto que outras procuram algo que tenha alguma afinidade com o seu negócio.

No caso da Canon, ela encontrou uma iniciativa sob medida para o seu perfil tecnológico na forma do Projeto Tsuzuri — nome oficial: Projeto de Herança de Patrimônio Cultural — um trabalho desenvolvido em parceria com a Kiyoto Culture Association, organização sem fins lucrativos cujo objetivo é de conservar os preciosos bens culturais e a tradição que representam o Japão, usando tanto a tecnologia digital e a técnica de artesanato tradicional japonês.

Representa a Canon neste projeto  Ryosei Fujiwara, que fez uma breve apresentação para os jornalistas latinos. Segundo o executivo, o projeto Tsuzuri é a fusão da tecnologia digital da Canon com a habilidade do tradicional artesanato de Kiyoto, que juntos são capazes de criar réplicas de pinturas sobre portas corrediças e biombos classificados como tesouros nacionais do Japão.

Para quem nunca foi apresentado, biombo é uma divisória formada por placas de papel grosso usado para tanto para decoração quanto para dividir ambientes. Esses painéis costumam ser pintados e unidos nas laterais, o que permite dobrá-los.

Canon_Tsuzuri_biombo

Já as portas corrediças são painéis de madeira usadas para separar as salas de uma casa japonesa. Elas são recobertas de ambos os lados por papel pintado com temas auspiciosos, paisagens ou criaturas místicas.

Canon_Tsuzuri_porta

Como podemos ver, esses objetos são, na sua essência, pinturas sobre papel, um material bastante frágil e sujeita a danos como rasgos, ataque de insetos e degradação pela exposição ao sol/raios ultravioleta. De fato até simples exposição ao ar pode acelerar o processo de deterioração tanto do papel quanto da tinta. Assim, de tão frágeis, esses tesouros nacionais não podem — por lei — serem expostos por mais de 60 dias por ano.

Assim proposta do projeto Tsuzuri é de criar réplicas exatas desses artefatos e expô-los no lugar dos originais, criando um ciclo virtuoso que permite divulgar e exibir essas obras de arte por mais tempo para um público mais amplo e protege os originais de riscos desnecessários e um desgaste prematuro.

O processo de criar uma réplica é dividida em duas partes: primeiro, a obra original é fotografada com a ajuda de uma DSLR montada em um mecanismo robotizado, cujas imagens são tratadas, unidas e processadas por meio de um programa criado pela própria Canon e que depois é impressa em um equipamento de grande formato também da Canon usando papel tradicional japonês.

Canon_Tsuzuri_captura_x_impressao

Depois disso, quando for necessário essas imagens impressas recebem acabamento adicional (como aplicação de folhas de ouro), montagem e acabamento realizados por artesãos especializados nas artes tradicionais de Kiyoto, como tecelagem, marcenaria e apliques metálicos.

Canon_Tsuzuri_acabamento

Entrando um pouco mais na parte técnica, cada painel é dividido em 15 partes e é fotografado duas vezes com a DSLR tanto sob a luz do local quanto sob a luz de flash.

Canon_Tsuzuri_captura_partes

A idéia neste caso é de obter o maior número de informações visuais sobre como as cores são vistas no local de exposição e os tons reais (obtidos com a iluminação a flash) que são processados em conjunto para obter o nível mais preciso de cores…

Canon_Tsuzuri_dupla_foto

… que é constantemente checado com o original. Como em muitos casos não é possível levar uma impressora de grande formato para o local onde se localiza a obra, os técnicos utilizam um modelo compacto para fazer as provas de comparação de cores, cujos ajustes serão depois repassados para o modelo de grande formato para imprimir a versão final.

Canon_Tsuzuri_captura_x_impressao2

O executivo explicou que o projeto só faz uma reprodução de cada original. A durabilidade das reproduções é estimada em aproximadamente 100 anos e uma questão que ainda está indefinida é se um defeito já existente no original (como uma mancha ou dano físico) deve ser mantido na reprodução ou poderia ser consertado. Fujiwara disse que isso ainda é motivo de acalorados debates e ainda não existe um consenso sobre isso.

No dia seguinte a essa apresentação, fui até Kiyoto e ver algumas dessas reproduções em cores e ao vivo. A primeira parada foi no Templo Tenkyu-in …

Canon_Tsuzuri_Tenkyuin

… para ver obra “Figura na porta: Tigre no Bambuzal“ criada pelo artista Kano Sanraku no século XVI. Note que o lado esquerdo dessa sala mantém a pintura original, enquanto que o lado direito já é uma reprodução da Canon.

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O resultado em si é realmente impressionante, já que não é possível notar diferenças de tons e cores entre o lado original e a reprodução.

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Uma curiosidade dessa pintura é que como nunca existiram tigres no Japão, o artista tinha que imaginar como seria esse animal, de modo que podemos ver diversas incoerências como as manchas do rabo, as pintas nas pernas e o seu jeitão de gato doméstico (que deve ter servido de modelo vivo).

Canon_Tsuzuri_Tenkyuin_tiger2a

 

De fato, note que os olhos desse felino tem pupilas verticais como nos gatos, ao contrário dos tigres e leões de verdade, que tem pupilas redondas.

Olho_tigre_x_gato

A segunda parada foi no tempo Kennin-ji, considerado o tempo Zen mais antigo de Kiyoto…

Canon_Tsuzuri_Kennin2

… onde estava sendo mostrado “Os Deuses do Vento e do Trovão” uma obra do período Edo de Tawaraya Sotatsu, por sinal sua obra mais célebre.

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Novamente, a qualidade dessas reproduções são impressionantes, que nada lembram uma impressão a jato de tinta:

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Outra reprodução presente nesse templo são os dragões das nuvens pintadas por Kaiho Yusho na era Monoyama…

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… mas ao contrário dos Deuses do Vento de do Trovão, essas obras são monocromáticas que utilizam diversos tons de tinta nanquim, o que torna esse trabalho particularmente mais interessante…

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… já que neste caso, trata-se mais de uma pura expressão do artista que não de esconde por trás de um leque de cores. Note também que o artista, no geral, não desenha linhas de contornos aplicando apenas texturas e tons de claro/escuro.

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Mais informações no site da iniciativa, local que também abriga uma galeria virtual com diversos trabalhos já reproduzidos pela Canon.

Ainda em tempo: Nesse mesmo complexo existe o templo Hattô que recebeu em 2002 uma nova pintura de dois dragões feita por Koizumi Junsanku para comemorar os 800 anos da fundação do Kennin-ji. Ela mede 11,4 x 15,7 metros e foi pintada com tinta nanquim sobre papel tradicional japonês. Todo o trabalho foi feito na quadra de esportes de uma escola primária de Hokkaido e levou dois anos para ser completado.

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Trata-se de um belo exemplo de que a arte tradicional japonesa não vive apenas do passado e que o novo pode conviver pacificamente ao lado do antigo.

DisclaimerMario Nagano viajou ao Japão a convite da Canon, mas todas as opiniões e fotos bacanas são dele.

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.