Lente (velha) do dia: Boyer Saphir B 1:3,5 F=65

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Em homenagem ao mês da mulher, quem disse que elas não sabem desenhar uma lente fotográfica?

Já faz algum tempo que falamos sobre a Carl Zeiss S-Orthoplanar 1:4 f=50mm, uma objetiva para uso científico/industrial que achei numa oferta do ML …

… sendo que depois de um papo super amigável com o vendedor acabei ficando com duas delas, a S-Orthoplanar (embaixo a direita) e a Saphyr B da Boyer, uma lente relativamente rara (pelo menos fora da França) e que já faz algum tempo que estava na minha lista de desejos, um pouco acima da galinha com dentes, porém abaixo da paz mundial.

E o que tem de tão interessante nessa lente velha e bolorenta? — Bom, senta que lá vem história:

Boyer ♥ Suzanne

Pouco conhecida fora da França, a Établissements Boyer era uma pequena fabricante de lentes tocada por cinco funcionários fundada em Paris em 1895 por Antoine Boyer que passou a se chamar Boyer Frères depois que seus filhos André e Marcel assumiram o negócio aumentando assim o número de funcionários de cinco para seis pessoas.

Em 1925 após o falecimento de Marcel, André vendeu sua firma para outro André —  André Levy — que antes trabalhou na área comercial da Lacour-Berthiot e também foi diretor do departamento de fotografia da Baille-Lemaire.

O interessante é que, nessa época, Levy indicou para o cargo de desenhista chefe da Boyer sua esposa Suzanne Lévy-Bloch, na época com 31 anos e considerada uma matemática brilhante formada pela École Supérieure d’Optique – onde estudou com Henri Chrétien,inventor da lente anamórfica usada no sistema CinemaScope.

E até o falecimento do seu marido em 1965 Suzanne foi a única designer de lentes da Boyer sendo considerada uma das primeiras (se não foi a primeira) engenheira óptica da França.

Pedras Preciosas

Talvez até por influência de Suzanne (ou o fato da empresa ser francesa), todas as lentes criadas pela Boyer tinham nomes de pedras preciosas — ou seja — enquanto os alemães batizavam suas lentes com nomes sonoros e pseudo-científicos como Triotar, Tessar, Xenar, Planar, Sonnar, Elmar, Proxar, Distagon, Ultron, Ultragon, Septon, Dynarex etc. a Boyer adotou nomes mais chiques como Beryl (Berilo), Corail (Coral), Emeraude (Esmeralda), Jade, Onyx, Opale(Opala), Perle (Pérola), Rubis (Rubi), Saphir
(Safira), Topaz (Topázio) e Zircon (Zircônia?).

No geral cada uma dessas gemas estava associada a um certo desenho de objetiva da empresa, com exceção da Saphir que designou diversos produtos sendo que, no geral, a Saphir original identificava as lentes de desenho Tessar, mas também existiram as Saphir B, Saphir BX, Saphir C, Saphir D, Saphir X, Saphir Aviation, Apo-Saphir e Saphir Color.

Saphir B

No nosso caso, a lente que arrematei é uma Saphir B 1:3,5 F=65,um modelo para uso em ampliador fotográfico…

… onde “B” indica que ela é uma lente do tipo Plasmat/Orthometar (6 elementos em 4 grupos) cujo design por sinal, lembra alguns modelos da família Componon da Schneider Kreuznatch.

Ela tem 41mm de diâmetro e 35 mm de comprimento, sendo que parte do seu corpo externo já é feito de plástico o que indica que ela pode ser um modelo relativamente “novo” lá dos anos 1960. Isso porque na década seguinte, esse modelo “B” foi sucedido pelo modelo “BX”. E para facilitar o seu uso, adaptamos na mesma um anel de rosca M42:

O bacana é que seus elementos ópticos já possuem “coating” (tratamento antirreflexo) sendo que os blocos ópticos da frente de de trás podem ser facilmente desrosqueados do corpo principal o que facilita a sua limpeza e manutenção. E como é comum nas lentes de ampliador, ela não possui ajuste de foco:

Não existe essa coisa de almoço grátis

Essa lente nos saiu em conta no ML (na verdade ela foi quase um brinde) porque o vendedor nos alertou que ela estava com um “problema” e de fato, ao desmontá-la confirmamos o que o vendedor nos tinha dito que ela estava sem as palhetas da iris 😵. Assim, ela só poderia trabalhar na sua abertura máxima de f3.5:

Apesar disso não impedir que ela pudesse ser usada, pela nossa experiência com essas lentes antigas, o seu desempenho máximo nunca é alcançado na sua abertura máxima, performando bem fechando um pouco a abertura para f5.6~f11.

Assim passamos algum tempo pensando numa solução simples e viável para resolver esse problema — e a resposta veio da empresa Lensbaby que adota nas suas lentes o chamado Replacement Magnetic Aperture Set …

… que nada mais é que um jogo de discos com furos que correspondem a uma determinada abertura óptica (ou número f) que é colocada dentro da lente com a ajuda de uma ferramenta apropriada:

Trata-se de uma solução bastante simples, barata e que possibilita diversos efeitos criativos sendo que sua única desvantagem é a necessidade de desmontar a lente toda vez que o usuário quiser mudar sua abertura.

Abertura ‘ruela

Assim, medindo o espaço da iris dessa Saphir B, constatamos que o nosso “disco de abertura” deveria ter um diâmetro externo de 20 mm, de modo que com essa medida na cabeça, fomos fuçar na nossa caixa de porcas e parafusos e achamos uma arruela com essa medida exata 😁 …

… que encaixou perfeitamente no espaço onde ficava a iris da lente 😁😁:

E como dizem por ai (ou pelo menos lá na Grécia) “Audaces Fortuna Juvat” — ou seja — segundos nossas contas usando a fórmula A = π (D / 2)^2 = π (f / (2 * n))^2 o furo dessa arruela (8,3 mm) teria uma abertura focal de aproximadamente f7.7 o que fica perto e f8 — ou seja — dentro da sua faixa de melhor desempenho 😁😁😁 .

Mas para evitar possíveis problemas de reflexos indesejados no interior da lente, resolvemos pintar essa arruela de preto fosco…

… para depois finalmente colocá-la na lente:

Ai basta recolocar o conjunto óptico traseiro e a lente está pronta para uso:

E qual o efeito dessa mudança? Após essa modificação fizemos algumas fotos de teste sem a arruela (f3.5 à esquerda) e com a arruela (f7.7 à direita) e — a primeira vista — não notamos diferença alguma:

Porém ao compararmos essas imagens lado a lado na escala de 100% dá para notar uma sensível melhora da nitidez dessa lente ao fecharmos a abertura para f7.7:

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Vamos tirar fotos?

Segundo os expertos, essa Boyer B foi especialmente calculada para fazer ampliações fotográficas de até 5x com abertura de f11 de modo que — em tese — ela não seria uma lente muito boa para uso geral ou mesmo para tirar fotos.

E de fato, o que pudemos observar nos primeiros testes é que mesmo com coating, essa lente tem um flare bem acentuado produzindo imagens com contraste bem baixo…

,,, mas que pode ser melhorado fazendo alguns ajustes de contraste/brilho no Photoshop:

Outra solução mais analógica para amenizar esse problema é usar um parassol para evitar que luzes indesejadas incidam no interior da lente. Conseguimos fazer isso usando um tubo de papelão cujo interior (e também o exterior) foi pintado de preto fosco:

Com isso conseguimos obter resultados até que bem satisfatórios dentro de condições ideais de iluminação, temperatura e pressão do ar:

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Se comparado com outras lentes da Minolta e Nikon, as cores dessa Boyer apresentam tons mais neutros o que não é algo de todo ruim na fotografia digital já que ela permite que o fotógrafo tenha mais flexibilidade na hora de tratar a imagem no editor de imagens:

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Vale a pena ressaltar que essas lentes de ampliador são projetadas para não ter (ou pelo menos minimizar ao máximo) problemas de distorção e aberração cromática. Fora isso, a imagem tende a ser “plana” e sua nitidez bastante uniforme por todo o quadro da imagem.

Fora isso, as lentes de ampliador costumam performam melhor quando o assunto está numa distância curta…

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… ou média:

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Com relação ao seu bokeh, o seu efeito de desfoque é bastante sutil e agradável o que é algo notável para uma lente aberta em f7.7…

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… produzindo resultados igualmente bacanas em fotos macro:

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Considerações finais

Confesso que antes dessa aquisição, o meu nível conhecimento das lentes da Boyer se limitavam a duas coisas: O fato dela ser francesa e que uma delas (a Apo-Saphir) adotava o desenho Heliar. Fora isso essa marca para mim estava no mesmo grupo de outras marcas míticas que a gente só ouve falar mas que dificilmente terá uma em mãos para brincar, caso de marcas como Kern ou Angenieux ou lentes como a Contarex Hologon ou a Takumar 58mm f2.0.

Assim encontrar uma Saphir B à venda aqui no Brasil foi meio que uma surpresa e apesar dela não estar 100% inteira, deu para se divertir com ela, especialmente depois da modificação para f7.7.

O porém neste caso é que, ao contrário de outras lentes que já testamos e — de cara — a imagem sai linda já na primeira foto, este não é o caso da Saphir B onde precisamos entender seus pontos fortes e fracos e, aos poucos, a gente consegue ter um controle maior sob a mesma e obter resultados cada vez melhores, o que não deixa de ser uma das graças desse hobby né?

E qual vai ser a próxima lente (velha) do dia? — Talvez uma polonesa com nome bacana, uma japonesa para filme 16mm ou até uma russa com visual moderninho.

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Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

Por Mário Nagano

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