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AWS re:Invent: dois dias no país da nuvem

A cada segundo, mais de 10 mil transmissões iniciam ao mesmo tempo na Netflix – ou mais, dependendo do horário. Você pede um Uber e tenta ligar para o motorista. Ou pede um táxi na 99Taxis, tenta alugar um quarto no AirBnb ou faz um check-in no Foursquare. O que tudo isso tem em comum? Algum tipo de tecnologia de infraestrutura de computação em nuvem fornecida pela Amazon Web Services (AWS).

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Vim esta semana ao AWS re:Invent, em Las Vegas, curioso para entender como esses “blocos de construção” da internet funcionam. Nuvem, pra mim, era algo como “o computador de uma empresa em algum lugar”. Na prática, é algo que vai muito além disso: tem hospedagem, mas também processamento de dados, recursos de IA, internet das coisas, segurança de informação e muito mais. Já estive em eventos grandes de tecnologia, mas este acredito que foi um dos maiores, com 32 mil participantes.

“Fazendo uma reflexão de onde a nuvem está hoje, podemos dizer que em 2014, a nuvem era o ‘novo normal’ em TI; em 2015, era o modo de aumentar o controle sobre o destino da sua empresa. Hoje, usar a nuvem dá superpoderes a sua empresa”, afirmou Andy Jassy, CEO da AWS, na abertura do re:Invent (na foto que abre este post). “Para os próximos dez anos, teremos muito mais inovação que na primeira década de AWS. Não vamos mais perder tempo, energia ou medo de falar sobre usar a nuvem. Hoje, usar computação em nuvem não é mais uma conversa sobre se vai usar a cloud, mas sim quando vai usar”, comentou Jassy.

O mais interessante é que, pela questão de economia de escala da nuvem, são produtos acessíveis em preço a qualquer empresa (ou entusiasta/maker, já que alguns serviços são gratuitos). Um exemplo pessoal: este ZTOP fica hospedado no (incrível) serviço MediaTemple desde seus primórdios em 2007 (a conta mensal fica, em média, 120 dólares). Durante o re:Invent, a AWS anunciou o Lightsail, que oferece o mesmo tipo de servidor WordPress com preços a partir de … US$ 5 no plano mais simples, US$ 80 no mais caro.

Além disso, em apenas dois dias, a AWS fez mais anúncios de produtos novos que grandes eventos de tecnologia pessoal, focados em dois ou três produtos no máximo. Eu contei 29 novos produtos, entre serviços para aplicações, análise de dados, inteligência artificial, computação, bancos de dados, ferramentas de desenvolvimento e gerenciamento e migração de dados (incluindo o caminhão-disco rígido Snowmobile, que parecia mais uma ideia maluca, mas é real). O slide apresentado mostra somente.. 24 produtos (!).

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O que é importante aqui, do ponto de vista de “coisas que nós, humanos comuns, vamos usar em breve em sites e apps”, entram algumas experiências de computação envolvendo inteligência artificial:

Rekognition: permite adicionar análise de imagem aos aplicativos dos clientes, detectando objetos, cenas e rostos em imagens (incluindo comparação e busca de rostos). Curiosamente, é resultado de um produto criado pela Amazon.com para gerenciamento de estoque/inventário.

LEX: base do serviço Alexa (a Siri/Cortana da amazon.com), serve para criar interfaces de conversação usando voz e texto, na prática permite que qualquer desenvolvedor crie robôs de chat que entendem linguagem natural.

Polly: é um serviço que transforma texto em voz natural, compatível com 24 idiomas (incluindo português) e permitindo criar apps que falam.

Apesar de Polly falar nossa língua, o fato de seu irmão LEX não entender a semântica do português (ainda) é o motivo pelo qual a Alexa não fala/entende português também (e, por consequência, a Amazon não lançar o alto-falante/microfone/totem Echo no Brasil). Vi uma demo de casa inteligente movida a Amazon Echo com Alexa – que comanda TV, som, cafeteira e até cortinas e o ventilador – e fiquei bem impressionado na coisa.

Um dos temas repetidos à exaustão é a questão do atendimento ao cliente. Werner Wogels, CTO da Amazon.com, citou em sua apresentação no segundo dia as prioridades da empresa:
– 0: proteger consumidores todo o tempo
– 1: ouvir o que os clientes querem dizer e agir rcpido
– 2: dar escolha aos clientes
– 3: trabalhar com base nos pedidos do cliente
– 4: ajudar os clientes a transformar seus negócios

Mas é assim mesmo? Pelo visto, sim (a filosofia de Jeff Bezos para a Amazon.com se aplica aqui).

Em uma mesa-redonda com diversos clientes brasileiros da AWS – como Sul America Seguros, Nubank, Dafiti (Global Fashion Group), Elo7, Big Data Corp, VTex, Beleza na Web Magazine Luiza, ZazCar, GuiaBolso – a resposta era praticamente a mesma: sim.

Muitos recursos pedidos pelos clientes da AWS para novos recursos ou melhorias/ajustes/correções nos sistemas quase sempre é atendida, e existe um consenso de que muitas vezes a AWS lança um novo produto muitas vezes “cru”, com poucas funções, mas sem muito aviso a tecnologia ganha uma atualização e passa a funcionar direitinho.

Outro fator importante é que, para uma empresa de dez anos de idade apenas, a AWS mudou o mercado de tecnologia da informação mundial pelo simples motivo de ser mais barato que um sistema legado de TI (como um banco de dados, e a Oracle foi citada como dinossauro múltiplas vezes, ou um servidor em um data center). Um dos clientes brasileiros citou que ficou mais fácil a vida do pessoal por simplificar a infra-estrutura de tecnologia de uma empresa.

Se no passado para criar um novo produto – um app, por exemplo – era preciso pedir (e demorar) para instalar um novo servidor no datacenter para realizar testes, no AWS basta clicar em um botão no painel de controle e ativar quantos servidores quiser, fazer os testes e depois desligar. “Na AWS fazemos blocos de construção que parecem simples, mas fazem tudo muito bem, e custam muito barato para a maioria dos casos”, explica Adam Fitzgerald, chefe do programa mundial de desenvolvedores da AWS.

E, pelos dez anos apenas, dá para ver que a AWS fez com que empresas concorrentes se tornassem parceiras de serviço, no caso clássico de “me adapto ou morro”. Um dos grandes exemplos é a Rackspace, que oferece diversos serviços de hospedagem de apps/sites na nuvem. Agora, AWS é um dos produtos que estão no portfólio da Rackspace.

Ah sim, como todo bom evento de tecnologia, uma caminhada pela área de exposições mostrava nomes muito bem conhecidos do mercado de tecnologia entre os expositores: IBM, SAP, HP Enterprise, SAS, Micro Strategy, Ericsson, Intel, Qualcomm, Cisco e muitos outros. Nesse mundo veloz e cheio de “negócios disruptivos”, melhor se adaptar do que ser engolido (ou ficar fazendo ação de guerrilha com um Tesla na porta do hotel, como a Oracle :P).

Disclaimer: Henrique viajou a Las Vegas a convite da AWS. Fotos (de iPhone 6S Plus que pareciam ter ficados tão boas na hora) e opiniões são nossas.

Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin

  • Conta Desativada 03/12/2016, 19:28

    Ótima reportagem! Esse site é diferenciado. Continuem o excelente trabalho!

  • dflopes 13/12/2016, 15:38

    Como em pouco tempo o servidor passou a ser vendido como serviço – HP, Oracle e outras empresas de hardware que abram o olho…

    P.S.: Você não levou a DSLR?! 😯
    😀

    Confesso que viajei de ferias com a familia e a Nikon D90 ficou mais tempo no hotel.
    Note 5 e iphone 6s registraram a viagem – mas o flash fez falta (o que me levou a cogitar a troca do Note 5 pelo Moto Z Play + Hasselblad).
    E nem sempre a foto que estava boa na tela do celular ficou realmente boa.