ZTOP+ZUMO

Um passeio pelo Pier 9 Workshop da Autodesk

[Ztop na Autodesk 2016] Se existe o paraíso na terra para os adeptos do “faça você mesmo”, ele fica dentro de uma doca na Baía de San Francisco

Já faz algum tempo que o pessoal da Autodesk Brasil (oi Thais, oi Kelli, oi Pri!) nos disse que — caso algum dia estivéssemos de bobeira lá em San Francisco — eles gostariam muito de nos convidar para conhecer o Pier 9 Workshop, o novo espaço de pesquisa e experimentação criado para levar ao limite, tanto os produtos da casa quanto o processo criativo das pessoas, transformando assim a maneira como elas criam e fazem coisas hoje e no futuro, sejam elas um simples pão de batata até uma cidade inteira.

Assim, como já estávamos nos programando para cobrir o IDF 2016 em San Francisco, aproveitamos a oportunidade e chegamos um pouco antes para conhecer esse espaço (cujo acesso é apenas sob convite) e depois nos reunir com os executivos da empresa para falar sobre outros assuntos que serão cobertos em outros posts — portanto, fiquem ligados!

Autodesk_Pier9_embarcadero2

Para quem não sabe, o Pier 9 (embaixo) está localizado na antiga zona portuária da cidade — também conhecida como The Embarcadero — que fica a uns dois quarteirões de distância da Estação da Balsa (Ferry Building) que, por sua vez, fica praticamente em frente ao escritório da Autodesk, que ocupa parte do Southern Pacific Building, outro prédio histórico que faz parte do complexo One Market Plaza, situado no início da Market Street.

Autodesk_Pier9_predio_1

Ele avança para dentro da baía e foi projetado para ser um terminal de carga e descarga de mercadorias para os navios que atracavam no porto de San Francisco — atividade por sinal que entrou em decadência devido ao uso de containers, o que fez com que hoje essas imensas construções fossem renovadas e ocupadas por diversos empreendimentos, tanto públicos quanto privados.

Autodesk_Pier9_lado

De fato, a primeira impressão que tive ao ver o Pier 9 é de que estava no endereço errado já que — por fora — nada diz que a Autodesk está presente neste local…

Autodesk_Pier9_predio_2

… a não ser que você preste atenção nas placas ao lado da entrada principal…

Autodesk_Pier9_predio_4

… que dá acesso a uma imensa galeria coberta…

Autodesk_Pier9_predio_3

… cujo espaço está dividido em diversas seções alugadas por várias empresas.

Autodesk_Pier9_inside

… e, entre elas, a Autodesk:

Autodesk_Pier9_predio_5

Fundado em 2013, com direito à faixa de inauguração feita de metal e cortada com uma serra,…

Autodesk_Pier9_faixa_inalguracao

… o Pier 9 Workshop é, de certo modo, uma versão maior, melhorada e superturbinada do antigo Idea Studio, que ocupa ~3.250 metros quadrados do Pier e é formada…

Autodesk_Pier9_predio_6

… por diversas áreas de reunião e de convivência…

Autodesk_Pier9_oficina_1

… além de diversas oficinas que cobrem as mais diversas áreas de manufatura e/ou ferramentaria…

Autodesk_Pier9_oficina_2

… com equipamentos para usinagem de peças de pequeno…

Autodesk_Pier9_fresa

… e grande porte controlados manualmente ou por CNC:

Autodesk_Pier9_cortador_agua

laboratórios de eletrônica

Autodesk_Pier9_oficina_5

impressoras 3D e máquina de corte a laser

Autodesk_Pier9_impressoras_3D

ateliê de corte e costura

Autodesk_Pier9_oficina_7

… e até uma cozinha completa e superequipada que não tirei foto porque confundi o espaço com a cantina da empresa. 🙁

Fora isso, ainda existem áreas no Pier 9 meio Area 51, que não tivemos acesso, como o laboratório de robótica do grupo OCTO (Office of the CTO) e o laboratório de pesquisa de bio e nanotecnologia.

Tá bom ou quer mais?

Pausa para um momento Ztop+Zumo de reflexão:

Alguns podem até se perguntar: Por que é que a Autodesk investiu num espaço tão amplo e diversificado ao ponto de ter até uma cozinha e máquinas de costura?

Para entender isso, é bom lembrar que a empresa comprou o site de DIY (= faça você mesmo) Instructables.com de olho na sua comunidade de mais de 2 milhões de membros registrados (e os inúmeros visitantes casuais)…

Autodesk_Pier9_instructables

… o que representa um grande mercado em potencial para os produtos da Autodesk, pois a chamada comunidade de “makers” tem um desejo nato de desejar, conceber e construir suas próprias “coisas”. Logo, por que não fazer isso com a ajuda dos softwares da Autodesk e não com os do concorrente… Né?

E como no caso da famosa suíte de aplicativos de escritório do pessoal de Redmond, conhecer e aprender desde cedo a usar os softwares da Autodesk também pode ser um grande incentivo para que futuras gerações de profissionais procurem proficiência nos produtos mais avançados da casa e não do concorrente… Né?

Além disso, os “Makers” tem um grande prazer em experimentar e compartilhar novas ideias — o que fazem deles “influenciadores” natos — de modo que é muito prudente apoiá-los da maneira mais liberal, amigável e até divertida possível, para tê-los sempre do seu lado e não no do concorrente… Né?

De fato, bem antes disso a empresa já cativava esse público com softwares mais “populares” e até gratuitos, como o 123D (embaixo), TinkercardSktechbook, Homestyler, Pixlr, ForceEffect, 123D Catch, etc.

Autodesk_Pier9_123D

Sob esse ponto de vista, a Autodesk precisava de algo especial para abrigar/incentivar essa comunidade — em especial os contribuidores mais criativos do site (mais sobre isso adiante) — e ajudá-los a realizar seus sonhos mais loucos e/ou grandiosos…

Autodesk_Pier9_3D_Dress

… o que pode ser uma grande fonte de barulho na web — inspirando ainda mais pessoas a se juntar à essa comunidade.

Daí, surgiu a visão de criar um espaço com o estado da arte em softwares, equipamentos, materiais e novas tecnologias — o que inclui, é claro, a cozinha — para ajudar as pessoas a imaginar, conceber e fazer desde um bom prato até um novo mundo.

Autodesk_Pier9_instructables3

Essa história por sinal, lembra vagamente o lendário caso do Xerox PARC, com a diferença de que a gerência da Autodesk sabe muito bem o que esperar dos seus núcleos de pesquisa, ao contrário da fabricante de copiadoras dos anos 1970, que nunca entendeu o valor do que criou no PARC, como a impressora a laser, a porta Ethernet e a Interface Gráfica (embaixo) — que Steve Jobs, numa batida de olho, percebeu naquilo o futuro da computação pessoal e implementou rapidamente nas linhas de computadores Lisa e Macintosh.

Xerox_Star_8010_workstations

(c) Digibarn Computer Museum

E se recordar é viver, esse pessoal da Autodesk é bem vivo!

Outro uso mais funcional e prático do Pier 9 Workshop é de dar suporte técnico aos clientes da casa na área de manufatura, uma vez que muitas máquinas com CNC já podem ser comandadas com softwares da Autodesk…

Autodesk_Pier9_programmed_by_2

Esse espaço também funciona como um campo de provas para novos produtos, testar sistemas robóticos e até auxiliar clientes e parceiros a resolver problemas técnicos ou fazer ajustes nos seus equipamentos.

Autodesk_Pier9_maquinario

Legal né?

 

Mas voltando ao que interessa, nossa visita foi conduzida por Rick Dean embaixador do Autodesk Workshop at Pier 9…

Autodesk_Pier9_Rick_Dean

… que nos apresentou as oficinas e o funcionamento de diversos equipamentos…

Autodesk_Pier9_oficina_maq_usinagem

… e o que eles são capazes de fazer:

Autodesk_Pier9_oficina_usinagem

Autodesk_Pier9_oficina_pecas_2

Autodesk_Pier9_oficina_pecas_4

Autodesk_Pier9_oficina_pecas_1

Autodesk_Pier9_oficina_pecas_5

Autodesk_Pier9_oficina_pecas_3

Ele também destacou uma faceta bem interessante do Pier 9: lá nem tudo é controlado por computador e/ou impresso em 3D. Muitos espaços são dedicados a atividades mais “mão na massa”, como a oficina de marcenaria…

Autodesk_Pier9_oficina_carpintaria

… e de ferramentaria. Dean comentou que isso é uma influência do pessoal do Instructables já que muitos membros que utilizam o espaço preferem trabalhar com ferramentas mais “simples”. Muitos deles — no meio do processo de realização dos seus projetos — descobriram, se apaixonaram e aprenderam a operar essas máquinas no próprio Pier 9 o que, de um certo modo, até aumenta o fator “fui eu que fiz!”

Autodesk_Pier9_oficina_ferramentaria

De fato, a faceta mais conhecida do Pier 9 Workshop é o Artists in Residence (AIR), um programa que apoia e conecta artistas e a comunidade de Makers na realização de seus projetos inovadores, oferecendo para eles todos os  recursos e as ferramentas disponíveis no espaço.

Esse programa é um tipo de estágio/residência com duração de quatro meses, onde o participante recebe suporte e treinamento no uso dos equipamentos da casa e que estão disponíveis para uso de segunda a domingo/24 horas por dia. Além disso, a Autodesk até oferece um auxílio de custo mensal de US$ 2 mil e uma graninha extra para cobrir o custo do material usado no projeto.

No fim do programa, o participante deve fazer uma apresentação do seu trabalho e publicar o conteúdo no site Instructables.com. O participante mantém o direito intelectual da sua obra e também pode levar tudo que foi criado na oficina para casa. 🙂

Ainda em tempo:

Para aqueles interessados em participar desse programa, ainda é possível fazer a inscrição para se candidatar a uma vaga durante o período de fevereiro até maio de 2017.

Os requisitos básicos são que o participante tenha uma conta no Instructables.com e já tenha alguns trabalhos publicados para avaliação.

PORÉM, a inscrição deve ser feita até o dia 28 de Agosto de 2016 (domingo próximo).

Segundo o FAQ do programa, a empresa aceita candidatos que não morem nos EUA — de fato, dois brasileiros já participaram (e um deles já deu curso para o Henrique) — mas o interessado deve providenciar por sua conta o visto de entrada e obter autorização para permanecer no país durante o período de residência.

Mais informações aqui e aqui.

No hall de entrada do Pier 9, existe uma área onde alguns trabalhos do AIR ficam expostos.

Autodesk_Pier9_trabalhos

Este, por exemplo, é uma aplicação simples onde uma moeda de US$ 0,05 foi escaneada por um software de captura de imagem em 3D (como o 123D Catch da AutoDesk) e a informação espacial foi processada e esculpida numa máquina de usinagem com CNC:

Autodesk_Pier9_scanned_coin

Já esse trabalho é um estudo de modelagem em 3D onde o autor criou uma forma irregular, porém com sua massa metálica distribuída de modo tal que ela consegue se equilibrar sobre a ponta de uma agulha num local bem fora do seu centro.

Autodesk_Pier9_equilibrio

Esse trabalho é outro tipo de processamento de uma fotografia que foi transformada em um relevo tridimensional e impresso em 3D (alguém vê o gato?)

Autodesk_Pier9_foto_3D

Esse projeto é uma escultura impressa em 3D que, quando girada e iluminada com luz estroboscópica, produz um impressionante efeito de animação onde a peça parece mudar de forma de maneira dinâmica:

Autodesk_Pier9_strobe_animated_sculpture

E, neste caso, como um vídeo pode valer mais do que mil imagens:

Ainda no segmento de “coisas impressas em 3D que giram e fazem alguma coisa” este é um genuíno disco fonográfico de 33 rpm impresso em 3D e desenvolvido pela engenheira de software Amanda Ghassaei, que desenvolveu uma técnica de converter arquivos de áudio numa trilha de som que pudesse ser reproduzida num toca-discos convencional. Infelizmente, não foi possível ouvir o som ao vivo e em cores porque a agulha estava quebrada (boo!)

Autodesk_Pier9_vinil_3D

Mas felizmente existe um vídeo na página desse projeto no site Instructables:

Em outra sala havia outro mostruário com diversos exemplos de impressões em 3D, utilizando diferentes técnicas e materiais:

Autodesk_Pier9_3d_prints_1

Este, por exemplo, é um modelo seccionado de um músculo humano impresso em 3D onde é possível visualizar e estudar as diferentes partes do tecido:

Autodesk_Pier9_3d_prints_musculo

Já esta peça é um exemplo de como imprimir peças soltas, neste caso uma série de anéis entrelaçados, formando uma espécie de tecido como aquelas cotas de malha de armadura medieval. O espaçamento é criado por meio de algum tipo de material solúvel (ou base), que preenche os espaços vazios e é aplicado ao mesmo tempo que o material que formará a peça. Depois de pronto, basta remover a base que as peças se soltam.

Autodesk_Pier9_3d_prints_malha

Este é outro exemplo de peça com partes móveis, porém formada por dois materiais: A parte interna rígida e a externa flexível, que neste caso foi usada para criar uma lagarta de trator.

Autodesk_Pier9_3d_prints_lagarta

Aqui outro exemplo de combinação de um material rígido (em cinza) e flexível (em preto):

Autodesk_Pier9_3d_prints_cubo_mole_duro

Já esta estrutura de aparência meio estranha é um modelo em escala de um chassis de carro desenhado não por e sim pelo computador. De fato, trata-se de outra pesquisa avançada da Autodesk codinome Dreamcatcher, que explora o chamado Design Generativo onde máquinas são capazes de desenhar máquinas até mesmo sem a intervenção humana.

Autodesk_Pier9_3d_prints_chassis

Falaremos mais sobre Dreamcatcher em outro post.

Finalmente, Dean apresentou a peça mais cara já produzida no Pier 9. Um bloco de resina e plástico avaliado em alguns (ou seriam muitos) milhares de dólares.

Autodesk_Pier9_3d_prints_bloco

Segundo sua explicação, isso era para ser uma simples impressão de um modelo de prédios em 3D (na cor branca) mas o artista que estava preparando a peça não colocou a base solúvel na impressora e sim esse material transparente (que custa alguns milhares de dólares o quilo) e o resultado foi essa obra caríssima no sentido mais exato da palavra, mas não necessariamente valiosa.

Autodesk_Pier9_3d_prints_bloco1

Ai meu orçamento do projeto…

Disclaimer: Mario Nagano visitou o Pier 9 a convite da Autodesk, mas as opiniões e fotos bacanas são dele.

 

 

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

  • dflopes 24/08/2016, 21:25

    Um parque de diversões para cadistas, marceneiros, cnc e artistas…