ARM, 20 anos

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Sábado passado (27/nov) fez 20 anos que a Acorn Computer resolveu separar seu grupo de design de processadores para criar a Advanced RISC Machines, mais conhecida como ARM. Mais do que um chip de baixo consumo, a ARM pode ser considerada o último bastião de resistência da antes animadíssima indústria de TI da Inglaterra, país que nos deu os micros da Sinclair, os handhelds da Psion, o IT Crowd e o sistema operacional Symbian.

Entre os eventos programados para comemorar essa data, está a inauguração de um novo prédio no QG da empresa em Cambridge — o ARM6 (que irá abrigar o grupo de processamento de mídia) — e diversas atividades envolvendo a comunidade local e no exterior, a criação de uma incubadora de novos empreendimentos na área social e ambiental, coleta de fundos para iniciativas de caridade e até uma corrida de robôs desenvolvido pelos estudantes com a tecnologia ARM.

Graças a engenhosa simplicidade do seu funcionamento, baixo consumo e preço competitivo, a microarquitetura ARM praticamente domina o mercado de dispositivos móveis com alguma capacidade de processamento embarcado como telefones móveis, smartphones, handhelds e tablets, pontos de acesso sem fio, impressoras, roteradores, servidores NAS, leitor de e-books,  brinquedos, reprodutores de mídia, aparelhos de GPS automotivo, TVs etc. etc… rodando os mais diversos sistemas operacionais como Linux, Maemo, Android/Chrome, iOs, MeeGo, Symbian e até mesmo Windows!

Fora isso, por muito tempo a ARM se manteve fora da tela de radar de outros fabricantes de chip — em especial o de Santa Clara — graças a uma inteligente estratégia de licenciamento de sua tecnologia. Isso permitiu que qualquer empresa pudesse criar processadores que atendessem exatamente às suas necessidades, possibilitando até a adição de seus próprios recursos. Entre as diversas firmas que mantém parcerias com a ARM estão a Apple, Freescale, Marvell, NEC, NVidia, Oki, Qualcomm, Samsung, Sharp, ST Micro, Symbios Logic, Texas Instruments, VLSI Technology, Yamaha etc. Nomes badalados pela mídia como Cortex, SnapDragon e Tegra também identificam famílias de produtos baseados em ARM.

Curiosamente, até a Intel já foi parceira da ARM (meio que por acaso) já que na época em que ela comprou da DEC em 1998 levou de quebra um processadorzinho RISC chamado StrongARM, que era tão bom que a Intel resolveu dar fim no seu próprio chip RISC, o i960.  Interessante notar que o StrongARM evoluiu para a família de produtos Intel XScale, usada em PDAs, smartphones e equipamentos de rede e vendida posteriormente para a Marvell. Isso aconteceu na época que a Intel decidiu levar a microarquitetura X86 para os dispositivos móveis com o lançamento de seu primeiro chip de baixíssimo consumo de energia conhecido como Atom, o que colocou a ARM definitivamente na tela de radar do pessoal de Santa Clara. Isso renovou minha impressão de que a Intel não consegue viver sem um concorrente com nome de três letras começando com A.

E se para aqueles que acham que eu pirei de vez por não usar chapéu na rua, gostaria de apresentar o mais novo executivo da ARM no Brasil e chapa deste Zumo — José Scodiero — ex-diretor geral da AMD para o Brasil e América Latina.

Eu não via o Scodiero desde a época em que ele saiu da AMD e reencontrei-o no final do mês passado, quando ele me explicou que a ARM o contratou para fortalecer a presença da empresa aqui no Brasil e na América Latina, incluindo suporte local aos seus parceiros internacionais – como a NXP (ex-Philips), Motorola, Texas Instruments, Qualcomm etc., além de estabelecer novas alianças estratégicas com empresas locais e governo com o objetivo de incentivar o desenvolvimento e uso da tecnologia ARM no que ele chama de ecossistema local de silício.

Por outro lado, o pessoal de Cambridge está muito interessado no desenvolvimento de design houses locais e que elas adotem a cultura ARM em seus projetos.

Segundo o executivo essa iniciativa teve início em abril de 2008, época em que a empresa Cadence fechou um acordo com o governo federal para criar o primeiro centro de treinamento para desenho de ciruitos integrados no Brasil localizado em Porto Alegre, o primeiro dentre os quatro a serem criados pelo programa IC Brasil. Como a Cadence utiliza material da ARM em seus programas de treinamento, é papel do executivo zelar pelo bom andamento dessa iniciativa.

Junte-se a isso o poder (ou mais exatamente o tamanho) do governo federal como consumidor de tecnologia capaz de exigir produtos e soluções muuuito interessantes e sob medida como a urna eletrônica ou o SBTVD  temos ai um ecossistema bastante propício para o desenvolvimento de uma indústria de semicondutores genuínamente nacional, que pode não bater de frente com gigantes como a Intel mas que pode encontrar seu espaço no desenvolvimento de produtos mais simples, porém de grande utilidade como sistemas de controle de processos industriais, semáforos inteligentes, setup boxes, sistemas de monitoração e coletores de dados, computadores de bordo, sistemas militares e por aí vai.

Way to go Zé!


Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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