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Android Go no Moto e5 Play: Quando menos é mais (ou mais do mesmo)

No geral, o Moto e5 Play até que oferece uma boa experiência de uso, mas ele nunca nos deixa esquecer que se trata de um modelo de entrada.

Intros e outros

No fim do nosso hands-on (mini!) do Moto e5 Play nos propusemos a usá-lo por algum tempo para ver se essa tal de versão Go do Android Oreo cumpre o que promete: oferecer uma boa experiência de uso nas aplicações do dia a dia mesmo num aparelho de entrada com 1 GB de memória:

À primeira vista, isso pode até parecer bruxaria ou bravata do marketing do Google, mas a idéia neste caso lembra vagamente àquela usada pela indústria automobilística com o carro “popular” com motor 1.0 ou seja, vamos compensar o menor desempenho com um conjunto mais leve, enxuto e com menos penduricalhos e vender por um preço “bacana” (seja lá o que isso signifique).

Isso pode até parecer uma afronta para os entusiastas de carros mas — para quem sempre andou a pé ou de transporte público — isso pode ser uma oferta bem interessante.

Então no fim das contas, o que foi que o Google fez — ou melhor — o que é o Android Go?

Em termos bem simples, o Android Go é o Android One com uma visão mais liberal. Ao contrário do One onde o Google estipulava um hardware específico e exigia o uso de um Android “puro”, a idéia por trás do Go é de focar apenas na chamada “experiência de uso”. Na prática, o Go é essencialmente uma plataforma de software criada para rodar bem em um smartphone de entrada, mas que pode rodar em qualquer hardware, o que nos leva a crer que nada impede que ele possa ser implementado em aparelhos até mais poderosos (falaremos mais sobre isso adiante).

E o que foi que o Google cortou da versão “completa” do Oreo para chegar no Go? Resposta: Em coisas como o Picture-in-picture, aplicativos com tela dividida, Android for Work ou até mesmo o Google Daydream — ou seja — se você ignorava a existência desses recursos e nunca sentiu falta deles — parabéns — você pode se adaptar muito bem com o Go! 🙂

Fora isso, o Google também otimizou algumas de seus apps (facilmente identificáveis pelo sufixo GO) que, depois desse exercício de emagrecimento…

… fez com que eles ficassem bem menores (ocupando assim menos espaço de armazenamento) e, consequentemente mais rápidos na sua inicialização (algo em torno de 15%):

No caso do moto e5 Play o sistema completo ocupa apenas 4,1 GB o que é algo muito relevante para um aparelho que vem com apenas 16 GB de armazenamento, mas que pode ser expandido por meio de cartões microSD:

Também é interessante notar que o fabricante não diz (ou pelo menos não deixa muito claro) que a versão do Android é o 8.1.0 Oreo é Go ou não, o que nos leva a crer que a idéia por trás disso é que o usuário não perceba a diferença entre usar uma ou outra versão.

Mas voltando ao que interessa, qual é a experiência de usar esse aparelho?

No que se refere à sua apresentação, o Moto e5 Play não difere muito de seus irmãos maiores da série e com seu gabinete em policarbonato com acabamento fosco (que até melhora a sua pegada) e sua ampla tela de 5,3″ na proporção 18:9 que ocupa boa parte da frente do aparelho  mas não ao ponto de precisar de uma “franjinha” para abrigar sua câmera (com LED de flash) e o alto-falante do telefone.

Um detalhe que chamou a nossa atenção, é que essa saída de som também faz o papel de alto-falante na hora de reproduzir vídeos e fazer chamadas de viva-voz. Uma sacada interessante dessa solução é que, caso seja necessário ouvir mensagens no viva-voz (ou um podcast curto) em um ambiente silencioso ou até mesmo barulhento sem fone de ouvido,  o usuário pode baixar um pouco o volume desse falante e encostá-lo no ouvido, como se estivesse recebendo uma ligação de voz.

Mas como é de se esperar de um modelo de entrada, sua tela LCD não é protegida com nenhuma camada de vidro anti-risco (tipo Gorilla Glass). Além disso, sua resolução é bastante modesta (480 x 960 pixels com densidades de 201 ppp) se comparada, por exemplo, com o novo Zenfone 5 (1.080 x 2.246 pixels com densidade de 402 ppp).

Em termos práticos, essa diferença pode não ser perceptível nas aplicações do dia a dia, a não ser em casos extremos onde são mostrados textos ou imagens muito pequenas na tela.

Outra “economizada” que notamos no moto e5 Play foi na sua câmera equipada com um sensor de imagem de apenas 8 MP com objetiva de abertura f/2.2 e iluminador de flash do tipo LED…

… capaz de capturar imagens em três tamanhos e resoluções diferentes, que vai do tradicional formato 4:3 de 8 MP (3.264 x 2.448 pixels)…

… passando pelo formato 16:9 de 6 MP (3.264 x 1.836 pixels)…

… e chegando finalmente no novo formato 18:9 de 5,3 MP (3.264 x 1.632 pixels):

Note que à medida que a imagem fica mais larga, o tamanho da imagem também fica menor. Isso porque o formato 16:9 e 18:9 nada mais é que a imagem em 4:3/8 MP recortada para se ajustar aos outros formatos. O curioso é que essa câmera não oferece um formato quadrado (1:1) muito usada desde a popularização de apps como o Instagram.

Para nós, a app de câmera do moto e5 Play é simples e direta, mas mereceria uma boa reformulação ou pelo menos uma polida na sua interface com o usuário. Isso porque por trás do seu visual simples e despojado, existem alguns recursos bem interessantes e outros nem tanto.

Por exemplo, no seu modo automático, ele oferece controle de exposição (+/- 2 pontos de exposição), zoom digital de até 8x, suporte para HDR, temporizador de disparo, foto em panorama, gravação de vídeo em câmera lenta e até transmite vídeos ao vivo para o Youtube.

Em contrapartida ela não oferece praticamente nenhum filtro de efeito (incluindo coisas simples como captura em preto e branco) com exceção do filtro de embelezamento que, curiosamente, só funciona com a câmera frontal.

Vale a pena ressaltar que o app da câmera também possui um modo manual com seus tradicionais controles deslizantes sobre a tela que já vimos no passado na Câmera Hasselblad True Zoom para Moto Z:

Com relação a sua experiência de uso, no geral a câmera funciona bem mas ela pode demorar para inicializar dependendo do número de apps abertos ao mesmo tempo. E para nossa surpresa, respeitando é claro os limites dessa câmera, até que a qualidade das fotos capturadas é muito boa para um modelo de entrada:

 

Com relação as outras funcionalidades do seu hardware, vale a pena mencionar a presença do rádio FM e a possibilidade de usar o iluminador de LED. O aparelho também oferece o modo roteador Wi-Fi (tethering) só que ele está meio que escondido no menu de configurações na opção Rede e Internet.

Outra curiosidade desse hardware é que apesar de não ser divulgado pela empresa, descobrimos meio que por acaso que o moto e5 Play possui um modo de recarga rápida, mas desde que conectado com um adaptador de tomada compatível com a tecnologia Quick Charge da Qualcomm o que não é o caso do modelo que acompanha o produto:

E sobre os apps Go (e não Go)?

No geral, o Moto e5 Play vem com poucos apps pré-instalados de fábrica, o que pode agradar àqueles que dão preferência a experiência de “Android Puro” (seja lá o que isso signifique) apesar de acharmos que, neste caso trate-se mais uma questão prática (entenda-se menor consumo de recursos e de memória) do que ideológica propriamente dita:

De fato, essa tal de “experiência de uso” precisa ser analisada de duas maneiras distintas. A primeira delas é sob ponto de vista dos apps to Go que realmente funcionam bem dentro desse contexto. Já a outra é sob o ponto de vista dos apps “não Go” cujo desempenho pode sofrer (ou não) com as limitações dessa plataforma de hardware.

Dentre as principais aplicações to Go lançadas pelo Google, talvez a mais parecida (para não dizer praticamente idêntica) com o original é o Gmail Go cuja maior diferença é mesmo o seu tamanho — apenas 9,9 MB contra 20~25 MB da versão full. De resto tanto o desempenho quanto a experiência de uso é praticamente a mesma:

E se você acha que 9,9 MB é pouca memória, o Maps Go é menor ainda, ocupando míseros 167 kb de tamanho contra 25~30 MB do Maps original. Isso porque ele é o que os expertos chamam de Progressive Web App que precisa do Chrome para funcionar. Apesar disso, a experiência de uso é bem similar à do Maps.

Porém esse sistema não oferece recursos como mapas offline, usar apenas o Wi-Fi e, para navegar no mapa é preciso instalar uma outra app to Go (embaixo) o que, novamente, demonstra a estratégia do Android Go de alocar e/ou utilizar apenas o recurso necessário somente quando necessário.

Já o foco do Youtube Go está no básico ou seja — assistir vídeos (duh!) — fora isso ele também procura economizar no consumo de dados, permitindo por exemplo, que o usuário possa baixar previamente um vídeo (no Wi-Fi) em diversos níveis de qualidade para assisti-lo depois.

Interessante notar que o tanto o Assistente quanto o Pesquisador Google não estão integrados ao sistema operacional e sim disponíveis na forma de apps na versão Go, provavelmente para não ocuparem memória e não consumir recursos quando não estiverem em uso:

Mas de todo esses produtos, talvez o mais original é o Files Go, um gerenciador de arquivos com foco em tirar o máximo proveito de smartphones com pouca memória de armazenamento, de modo que ele é bastante proativo no que se refere a localizar e localizar, transferir e apagar arquivos velhos e/ou redundantes e/ou desnecessários:

Como já dissemos em outro post, o Google Play não obriga o usuário do Android Go a usar apenas apps to Go em seus smartphones. De fato, nada impede que ele instale e até mantenha as duas versões do mesmo app ao mesmo tempo (por exemplo, o  Maps e o Maps Go).

De fato, a única coisa que o Google Play faz ao identificar um usuário do Android Go é sugreir apps “to Go” ou “Lite” …

… que também estão sendo desenvolvidos e disponibilizados por outras empresas e desenvolvedores. Aparentemente, também entram nessa lista apps normais reconhecidamente pequenos e leves:

Aliás, nada impede também que um usuário da versão completa do Android instale e use apps to Go ou Lite em seus aparelhos.

Nossas conclusões:

Durante o anúncio do Moto e5 Play no Brasil, Marcelo Ferrante, gerente de parcerias do Google para América Latina, deixou claro que o público alvo do Android Go são aqueles usuários que estão migrando do seu último featurephone para o seu primeiro smartphone ou até mesmo aqueles que já estão migrando para o seu segundo smartphone depois de uma péssima experiência com o primeiro (provavelmente algo bem furreca).

Com isso entendemos que o perfil do usuário que a Motorola/Google querem atingir com o e5 Play não são os chamados heavy users e sim aqueles usuários que ficam no básico — ou seja — fazer ligações, trocar mensagens e consumir conteúdo na web.

Sob esse ponto de vista, o Moto e5 Play atende bem a essa demanda se levarmos em consideração que esse público provavelmente não irá instalar e usar intensivamente muitas aplicações além do bom e velho Facebook (que a propósito já possui uma versão Lite), o insanamente popular WhatsApp e talvez alguns apps de banco, serviços on-line e alguns joguinhos casuais. E dentro desse perfil de usuário mais tranquilo também justificaria a adoção da bateria de 2.100 mAh.

Dai nossa conclusão de que o e5 Play consegue fazer fazer mais com menos — ou mais exatamente mais do mesmo — o que neste caso não é algo ruim, diga-se passagem.

É o smartphone que você compra para dar de presente para a sua mãe ou para sua avó.

E se existe algum furo nesse conceito talvez ele esteja só mesmo nas aplicações “não Go” que podem até nem ter problemas de desempenho propriamente dito (por causa do processador Snapdragon 425 da Qualcomm) mas que podem, eventualmente, sofrer um pouco com a limitação da memória RAM em 1 GB.

De fato, os únicos momentos em que sentimos — ou mais exatamente, que recordamos que estávamos usando um smartphone de entrada — era na hora de abrir mais um novo app (entre outros já abertos), acionar um comando ou mesmo dar um “pinch zoom” numa imagem e o sistema demorou mais de 1 segundo para responder.

Fora isso, talvez a maior crítica que podemos fazer ao e5 Play (pelo menos por enquanto) seja o seu preço sugerido de lançamento — R$ 799 — o que é um valor acima da concorrência que também já lançou seus aparelhos com Android Go no nosso mercado — apesar de que se analisarmos lado a lado algumas das suas especificações técnicas…

Moto E5 Play
(XT1920-19)
Positivo Twist
Metal S531
Alcatel 1
Preço sugerido R$ 799 R$ 699 R$ 474
Processador Qualcomm Snapdragon 425
1.4 GHz Quad-Core
Adreno 308
Mediatek MT6580
1,3GHz Quad-Core
Mali 400
MediaTek MT6739
1,28 GHz Quad-Core
PowerVR GE8100
Tela / resolução LCD 5,3″ (18:9)
960 x 480 pixels
LCD 5,2″ (16:9)
854 x 480 pixels
LCD 5,3″ (18:9)
960 x 480 pixels
Memória RAM 1 GB 1 GB 1 GB
Memoria armazenamento 16 GB 32 GB 8 GB
Camera frontal/traseira 5 MP / 8 MP 8 MP / 8 MP 5 MP / 8 MP
Slot para Dual SIM / Micro SD sim / sim sim / sim sim / sim
Micro SD máximo 256 GB 2 GB 32 GB
Bandas 2G / 3G / 4G 2G / 3G 2G / 3G / 4G
Sensor biométrico sim não não
Câmera frontal / traseira 5 MP / 8 MP 8 MP / 8 MP 5 MP f/2.0
Bateria 2.100 mAh 2.200 mAh 2.000 mAh
dimensões (LxAxP) 7,1 x 14,8 x 0,9 cm 7,5 x 15,0 x 1,0 cm 6,6 x 13,8 x 1,0 cm
Peso do aparelho com bateria 145 g 160 g 134 g

 

… podemos concluir que o modelo da Motorola é a opção mais atrativa em termos de hardware, a não ser que você faça questão de ter 32 GB de armazenamento — mas aí não faça questão de conexão 4G.

Fora isso, também não podemos ignorar a força dos nomes Qualcomm e Motorola, sendo que esta última ainda é uma marca muito apreciada por aqui e, até por causa disso, não deixa de agregar um certo valor ao produto.

Aliás acreditamos que os maiores concorrentes do Moto e5 Play nem sejam esses modelos da Alcatel e  Positivo e sim outros produtos da própria série e5 da Motorola.

Isso porque por R$ 100 a mais, o consumidor pode levar para casa o Moto e5 de linha (R$ 899) que já vem com 2 GB de RAM, tela HD+ (1.440 x 720 pixels), câmeras traseira de 13 MP, praticamente o dobro de bateria (4.000 mAh) e Android Oreo completo.

E pelo menos até a publicação deste post (31/08) a Motorola também estava vendendo o Moto e5 plus com bateria de 5.000 mAh pelo valor sugerido de R$ 899.

Para nós este sim é o grande desafio do Moto e5 Play com Android Go — e neste caso, qual seria a melhor resposta da Motorola?

a) Baixar o preço do e5 Play?

b) Descontinuar o e5 de linha e ficar apenas com o e5 Play e e5 Plus?

c) Relançar o e5 de linha com Android Go?

d) N.D.A.?

Digamos que o seu palpite é tão bom quanto o nosso, de modo que só o tempo e as forças do mercado têm essa resposta. 🙂

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.