Retrotech: Os 50 anos da “Mãe de Todas as Demos”

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Em 9 de dezembro de 1968, Doug Engelbart subiu ao palco do Fall Joint Computer Conference, em São Francisco para apresentar seu projeto intitulado “A Research Center for Augmenting Human Intellect” que mostrou o caminho do que seria a computação pessoal nas próximas décadas.

O novo mito de Prometeu (ou a “bicicleta da mente” de Jobs)

Todo todo nerd/geek/fanboy de Apple sabe de cor e salteado, reza a lenda que em 1979 numa visita a morada dos Deuses ao Laboratório PARC da Xerox no Monte limpo em Palo Alto, Prometeu Steve Jobs conheceu o fogo a Interface Gráfica (ou GUI)

… sendo que em menos de 10 minutos ele se convenceu que naquilo estaria o futuro da humanidade da sua empresa, de modo que ele usou toda a sua astúcia e inteligência para se apoderar do fogo de Héstia dessa idéia e criar sua própria versão que foi implementada no Apple Macintosh e dado aos mortais vendido aos consumidores pela bagatela de 3.195 doletas:

Porém, pouco se fala sobre a pesquisa básica que levou ao desenvolvimento da Interface Gráfica que data do fim dos anos 1950, época em que Douglas Engelbart teve a visão de um futuro onde os computadores seriam uma ferramenta para maximizar o intelecto do ser humano, permitindo assim que ele resolvesse qualquer problema do mundo.

Uma idéia por sinal também compartilhada por Jobs só que de uma maneira mais elegante, já que ele adorava uma analogia de que o computador seria a bicicleta da mente:

I think one of the things that really separates us from the high primates is that we’re tool builders. I read a study that measured the efficiency of locomotion for various species on the planet. The condor used the least energy to move a kilometer. And, humans came in with a rather unimpressive showing, about a third of the way down the list. It was not too proud a showing for the crown of creation. So, that didn’t look so good. But, then somebody at Scientific American had the insight to test the efficiency of locomotion for a man on a bicycle. And, a man on a bicycle, a human on a bicycle, blew the condor away, completely off the top of the charts.

And that’s what a computer is to me. What a computer is to me is it’s the most remarkable tool that we’ve ever come up with, and it’s the equivalent of a bicycle for our minds.” 

Steve Jobs

E para apresentar essa sua visão do futuro Engelbart realizou uma histórica apresentação num evento em San Francisco que ele ficou conhecida como a “Mãe de Todas as Demos” (“The Mother of All Demos”).

De fato, essas idéias de Engelbart foram fortemente influenciadas por um outro engenheiro, político e inventor chamado Vannevar Bush que, em 1945, escreveu um artigo na revista Atlantic intitulado “As We May Think” (= Como Podemos Pensar“) que descreveu um equipamento fictício chamado Memex que seria uma espécie de “máquina de informação” capaz de armazenar o conhecimento coletivo da humanidade e ser acessível por pessoas comuns, provocando assim uma “explosão” no conhecimento humano:

Como criar o futuro?

Engelbart começou sua carreira na Universidade de Berkeley. Em 1957, ele foi trabalhar no Stanford Research Institute em Menlo Park na Califórnia onde ele fundou o ARC (Augmentation Research Center) e começou a criar as ferramentas que ajudariam a potencializar a capacidade intelectual das pessoas por meio de computadores, que na época nada mais eram do que calculadoras super vitaminadas.

O primeiro resultado desse trabalho foi o “oN-Line System” ou NLS, que foi a base da Mãe de Todas as Demos, um gerenciador de textos que incorporou novas idéias como organização hierárquica dos dados e hyperlinks…

… desenhos simples…

… e até um sistema bem rudimentar de videoconferência, tudo disponível em uma única tela que funcionaria como uma mesa ou área de trabalho (ou desktop) para manipular esse conteúdo digital:

Mas para facilitar a operação desse sistema, Engelbart bolou e patenteou um dispositivo apontador que ele chamou de “indicador de posição X-Y”…

… que é mais conhecido nos dias de hoje como Mouse devido ao seu “rabinho”:

Trivia:

Curiosamente, o movimento do mouse de Engelbart era capturado por duas rodas montadas de maneira perpendicular.

Já versão de esfera foi inventado pela empresa alemã Telefunken em 1960 mas somente divulgada numa revista da empresa em outubro de 1968 ou seja, algumas semanas antes da Mãe de Todas as Demos.

E é claro que a engenhoca da Telefunken não se chamava Mouse e sim “Rollkugel” (Trackball)

Curiosamente, o mouse óptico foi inventado por Richard Lyon no Laboratório PARC em 1981.

Outro dispositivo também inventado pelo ARC mas que não foi pra frente foi o chorded keyboard (teclado acordeado)…

… onde como num instrumento musical, o usuário podia executar comandos usando um ou mais dedos para enviar até 31 instruções diferentes — como confirmar ou abortar — para o NSL:

Aqui, vale a pena ressaltar que o ARC não inventou a interface gráfica e sim alguns elementos básicos e conceitos essenciais, como a organização de informações, um novo dispositivo capaz de interagir com a tela o que viabilizou a metáfora da “mesa de trabalho digital” um conceito por sinal que foi bem aperfeiçoado pelo Xerox PARC com o uso de um ambiente gráfico bem mais avançado, capaz de apresentar objetos e ícones com mais qualidade e operada com mouse e teclado…

… assim como o WYSIWYG (what you see is what you Get, o que você vê é o que está ali) que se tornou realidade graças a outra invenção do PARC: A impressora a laser construída a partir de uma máquina Xerox modificada.

O Grande Show

Em 1968, o NLS estava rodando bem o suficiente num computador especialmente projetado para time sharing — o SDS 940 — de modo que foi decidido que ele seria apresentado na próxima edição do Fall Joint Computer Conference em São Francisco.

Além das telas de TV montadas nos corredores, a grande tela do auditório mostraria a tela do NLS sobreposta com a imagem de Engelbart que descreveria a demo. Um link de vídeo com antena de microondas também foi montado para transmitir sinais de vídeo do laboratório do ARC em Menlo Park até San Francisco (distante 48 km) e um modem improvisado foi montado para ligar o terminal usado no evento como o computador SDS 940.

Apesar da qualidade do vídeo não é lá grande coisa, o mais interessante é que o The Doug Engelbart Institute ofereceu esse material na integra (em 3 partes) no YouTube já que, antes disso, só tinha visto partes ou fragmentos desse registro:

Para aqueles que curtem história da computação, trata-se de um registro importantíssimo, já que ele mostra em pouco mais de uma hora uma visão meio que profética de como seria o mundo do amanhã a 50 anos atrás.

E no geral, até que Engelbart mais acertou do que errou né?

Para mais informações visite o The Doug Engelbart Institute

Ainda em tempo:

Para aqueles que acham que essa apresentação é muito longa e pesada, o Instituto também publicou uma versão compacta (em 10 partes totalizando 24 minutos) só com os melhores momentos dessa demo, além de uma versão interativa (~100 minutos) que quebra essa apresentação em 35 tópicos e uma versão anotada.

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

Por Mário Nagano

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