ZTOP

Retrotech: Yashica Dental Eye Digital Hack

Meio que desprezada desde a revolução digital, é tecnicamente possível remover a lente macro da câmera Yashica Dental Eye e adaptá-la numa câmera moderna.

Como entusiasta de fotografia e de câmeras clássicas, uma coisa que sempre me intrigou nesse mundinho é o baixo valor de mercado das Yashica Dental Eye, uma SLR analógica que, como o próprio nome sugere, foi especialmente desenhada para dentistas fotografarem arcadas dentárias de maneira simples e prática.

Para isso, sua principal característica é de reunir — em um único conjunto — uma câmera reflex com uma lente macro com ring flash embutido o que facilita em muito a sua operação e uso, ou seja, basta ligar a câmera, acertar o enquadramento, ajustar o foco e bater a foto que a câmera se encarrega do resto.

E até por causa disso, a Yashica optou por fixar a objetiva na câmera e fazer com que a mesma trabalhe apenas no modo automático (com ou sem o uso do flash). Fora isso, essa câmera utiliza uma escala de foco baseada em fator de ampliação que varia de 1/15 (a 155 cm de distância) até 1/1 (~15,5 cm) o que faz com ela não possa ser usada como uma câmera de uso geral, já que ela não foca no infinito.

Devido a esse alto nível de especialização, as Dental Eye não são particularmente valorizadas pelos colecionadores, muito menos pelo mercado de usados, o que faz com que algumas delas chegem a ser ofertadas por aqui na faixa de R$200~250 (US$ 62~78) o que é um valor irrisório para uma câmera do seu porte e padrão de construção.

Por outro lado, isso chamou a atenção dos entusiastas de macrofotografia que puderam ter acesso à uma excelente câmera para fotos externas (entenda-se flores, insetos e outras coisas pequeninas) por um preço super camarada, apesar de que eles são obrigados a usar filme já que nunca existiu uma Dental Eye digital (duh!)

Até por esses motivos eu nunca me interessei em ter uma Dental Eye apesar da sua objetiva macro de 100mm f4 sempre ter chamado a minha atenção por ser formada por cinco elementos em três grupos, o que me faz crer que ela seja uma lente do tipo Heliar apesar de nunca ter visto tal confirmação em nenhum canto da web.

De fato, essa minha suspeita também se baseia no fato de que a Kyocera/Yashica também produziu nessa mesma época, uma lente macro de 100mm f4 na sua linha ML…

… o que, para mim, faz todo o sentido também usá-la na Dental Eye do que criar uma nova lente sob medida para ela.

Foi ai que recentemente eu topei no ML com uma Dental Eye III  — o modelo mais novo/avançado da linha e aparentemente bem conservada — pela bagatela de R$ 150 (US$ 46) + frete.

Como é comum nessas ofertas “muuuito em conta” do ML, o vendedor afirmou não saber como testar a câmera, de modo que ele estava vendendo a mesma “no estado” e “sem garantia”. 😛

Isso normalmente pode indicar três coisas:

  1. Total ignorância por parte do vendedor (tipo não sei o que estou vendendo e é por isso que está barato).
  2. A câmera está quebrada (mas ele não quer dizer isso para não ter que baixar ainda mais o preço ou acabar casando com a mercadoria).
  3. Ele realmente não tem como testá-la, já que ela usa uma bateria de lítio modelo 2CR5 que não é exatamente barata e não é mais tão fácil de encontrar no mercado como já foi no passado.

Sob esse ponto de vista, essa compra é meio que um risco calculado, mas como estava muito mais interessado na lente do que na câmera, achei que por esse preço valeria a pena fechar o negócio e “pagar pra ver” (no sentido mais exato do termo) já que, na pior das hipóteses, eu ainda teria a opção de retornar o produto segundo as regras do Mercado Pago.

Assim, passados dois dias da compra ela já tinha chegado aqui na Zumo-caverna:

Como já disse, esse modelo é a Dental Eye III que difere do seu antecessor por usar um corpo mais moderno que, por sinal, parece ser uma versão simplificada da notória Contax RX (uia!)

E como já tinha visto no anúncio, até que ela está bem conservada para uma câmera produzida nos anos 1990…

… sendo que sua lente está realmente impecável, sem marcas de riscos, sujeiras ou ataque de fungos (yaaay!)

E para minha surpresa, ao instalar uma bateria nova ela ligou, disparou normalmente em todos os modos e até o ring flash funcionou (yaaay!)

Mas como alegria de pobre dura pouco, ao abrir o compartimento do filme eu notei que a cortina estava danificada e nem se movia ao fazer o disparo (boo!)

Pode até ser que essa câmera ainda tenha conserto, mas é bem provável que o custo dessa manutenção possa sair mais caro do que paguei pela mesma, de modo que ela vai ficar assim mesmo (por enquanto) já que, como disse antes, meu interesse está na lente e não na câmera.

Mas dai vem a pergunta de 150 dinheiros: Como retirar a objetiva dessa câmera?

Pesquisando na web existem diversos relatos de usuários que afirmam que é muito fácil remover a lente da Dental Eye II e III, porque seu engate segue o mesmo padrão Contax-Yashica (C/Y) usado nas suas SLR da época, como a Yashica FX-3 ou a Contax RTS. A diferença é que o botão de desengate da lente foi retirado da câmera, mas o mecanismo interno que trava a mesma no lugar ainda está lá.

Aviso importante: Quem quiser repetir esse procedimento, que o faça por sua conta e risco, já que não podemos nos responsabilizar por possíveis danos no seu equipamento.

Vale a pena observar que, segundo relatos na web, o engate da Dental Eye original (embaixo) é mais “permanente”, sendo que alguns conseguiram separar a mesma apenas arrebentando o engate, forçando a junta usando uma chave de fenda como pé de cabra. Esse modelo também vem equipado com uma lente de 50mm f/4 e um circuito de ring flash mais simples.

Já no caso da Dental Eye II, a lente/engate é a mesma do modelo III mas é sabido que os fios que a conectam com a câmera utiliza um padrão de cores diferentes:

Mas voltando ao que nos interessa, para remover essa lente é preciso antes remover a parte de baixo da câmera — o que é uma tarefa relativamente simples:

Primeiro, remova os quatro parafusos localizados na sua base e no compartimento da bateria…

… o que permite remover sua base, revelando o circuito que comanda a abertura e o flash da lente:

Aqui podemos ver que a lente possui uma segunda trava na forma de uma peça na forma de “T” (fixada com dois parafusos) que também ajuda a sustentar a lente. Note também que a fiação que vem da lente é ligado ao corpo por meio de um conector multivias:

Assim, para terminar de retirar a lente é preciso primeiro remover o parafuso do suporte…

… e desencaixar o cabo multivias:

Feito isso, pegue uma agulha e remova a tampinha de borracha que cobre a abertura que dá acesso ao mecanismo de desengate da objetiva…

… e insira algum objeto fino pelo orifício (neste caso um palito) e pressione-o contra o mecanismo interno para liberar a lente que gira no sentido anti-horário para desengatar-se da câmera:

Simples não?

Como já foi dito antes, esse engate segue o padrão Contax-Yashica (C/Y). Porém, note a ausência de qualquer contato mecânico, incluindo o pino que fecha automaticamente o diafragma da lente.

Não se preocupe com isso porque esse acionamento é feito eletricamente por meio de um sinal enviado da câmera (mais sobre isso adiante).

Esse engate padronizado permite que a lente possa ser facilmente instalada numa DSLM por meio de um adaptador de CY para NEX, FX ou Micro-Four Thirds (m4/3)…

… sendo que este último, por sinal, é o nosso caso:

Aqui alguns testes iniciais feitos logo após a retirada da lente do corpo da Dental Eye e instalada numa Olympus OMD-EM1. Como seu fator de corte é 2x, essa lente de 100mm se comporta como uma macro de 200mm:

Do jeito que está, essa lente 100mm f4 até que dá para tirar algumas fotos boas. Porém, não temos controle sobre a abertura da lente (que fica sempre aberta em f4) o que pode comprometer a sua profundidade de campo.

Fora isso, também não é possível disparar o ring flash, já que parte do circuito está dentro da lente e a outra parte na câmera (junto com a fonte de energia) de modo que para ativá-lo sem a Dental Eye seria necessário criar um novo circuito que complementasse o já existente dentro da lente o que, sinceramente, ultrapassa os conhecimentos técnicos deste que vos bloga. Assim, vamos deixar esse desafio para outro post (apesar de que alguns hackers russos já trabalham nisso).

Falando nisso, a comunicação entre o flash e a câmera é feita por uma série de fios que são usados para controlar o ring flash e também a abertura da objetiva.

E como alguns já podem ter notado, essa lente não possui anel de abertura. Isso porque, em nome da simplicidade e facilidade de uso, esse ajuste é meio que automatizado, controlado por um relê interno que fecha o diafragma quando o mesmo recebe uma corrente de 6 volts CC pelos fios Azul e Cinza:

Para comprovar essa tese fizemos uma ligação improvisada…

… e realizamos alguns testes com e sem o circuito ligado:

Aqui um exemplo com o diafragma todo aberto em f4 (circuito desligado) note como o fundo da cena e o rabinho do gato estão fora de foco…

… e aqui a mesma cena com o diafragma fechado (circuito ligado). Note o aumento da profundidade de campo e a melhora no foco no fundo:

Dai surge a dúvida: É possível controlar a abertura da lente variando a tensão desse circuito? Até onde dá para entender não, porque a abertura do seu diafragma varia de acordo com o ajuste do foco, por meio de uma conexão mecânica que existe entre o diafragma de o movimento de foco da lente.

Dai o que deduzimos é que o diafragma mantém-se sempre aberto para facilitar o ajuste de foco e na hora de bater a foto a câmera ativa o sinal elétrico apenas para fechar o diafragma na hora de bater a foto.

Essa relação direta entre a distância x abertura pode ser vista na escala de foco da objetiva onde podemos ver que ela varia de f4 (em amarelo) para 1,55 m (em branco), passando por f5.6 para 1,05 m, f8 para 65,5 cm, f16 para 25,5 cm e f22 a 15,5 cm:

Essa idéia pode parecer meio estranha, mas tem a ver com o uso do ring flash onde o disparador da câmera sempre trabalha a 1/125s e o flash sempre dispara na mesma potência. Isso obriga a lente sempre a fechar seu diafragma a medida que o assunto está mais próximo da câmera, reduzindo assim a quantidade de luz que chega no filme, evitando assim a superexposição (ou estouro) da imagem.

Estamos aqui diante de uma característica toda particular dessa objetiva que até poderia ser modificada, mas como no caso do ring flash isso exigiria um tremendo esforço em termos de conhecimento técnico e trabalho para desmontar a lente, desengatar o ajuste de abertura do mecanismo de foco e ainda por cima adaptar algum mecanismo de ajuste manual, cujo resultado final pode não ser nos mais agradáveis.

Nossa opinião é que este é um dos preços que pagamos tentar mudar a função dessa lente, de modo que talvez não valha a pena tamanho esforço neste caso.

E no final das contas, é melhor ter algum ajuste de abertura (enviando o sinal de 6 volts para a lente) do que não ter ajuste nenhum, né?

Para isso eu encapei todos aqueles fios dentro de um tubinho termoretrátil e só liguei na ponta o azul (+) e o cinza (-) numa tomada power plug coaxial, para um futuro atuador a pilha (que ainda estou inventando).

Outra característica que compromete um pouco o uso dessa lente é a sua limitada limitadíssima distância de foco, já que como vimos antes, essa lente foca a partir de 15,5 cm até 1,55 metros o que atende bem o seu público alvo, mas ela seria muito mais versátil se pudesse focar distâncias maiores até o infinito.

Na teoria, é possível fazer essa lente focar no infinito, bastando para isso reduzir a distância da lente até o plano do sensor de imagem (o chamado registro) o que não é algo tão difícil de ser feito nas câmeras mirrorless.

O problema neste caso é onde achar e/ou fazer e/ou modificar um adaptador que atenda a essa necessidade tão específica.

Depois de avaliar algumas possibilidades, lembrei de algo que li em algum fórum de fotografia, onde um membro disse que é muito fácil trocar o anel de engate da lente da Dental Eye…

Por um outro do padrão M42…

… doado por uma lente russa Helios 44M-4 (uia!)

O mais impressionante é que três dos quatro furos do novo anel batem com os da lente (uia! uia!), ou seja, basta retirar o anel original C/Y e fixar o novo padrão M42 e a modificação está pronta!

Feito isso, eu peguei um anel adaptador de lente de rosca Leica L/M39 para baioneta m43 (cuja rosca M39 foi convertida para M42 numa oficina de usinagem) e combinei ela com um tubo de macro padrão M42 número 1 (10 mm) original da Pentax. Com isso o seu comprimento total é de 19,5 mm contra 26mm do adaptador original, ou seja…

…  com o uso desse adaptador conseguimos reduzir o registro da lente em menos 6,5mm. O efeito colateral disso é que mudando essa distância é bem provável que a lente perca a capacidade de chegar na escala de 1:1.

E qual o resultado dessa modificação?

Detalhe de 100% da imagem acima

Detalhe de 100% da imagem acima

Considerações finais:

Como podemos ver, é relativamente simples fazer com que a objetiva macro da Dental Eye possa ser convertida numa lente para uso geral, porém com algumas limitações como o controle menos que parcial do mecanismo de abertura e a impossibilidade de usar o seu ring flash de maneira simples e prática (pelo menos por enquanto).

E no fim das contas, vale a pena fazer essa conversão?

Como no caso do adaptador para lentes Contax, em termos de custo x benefício tudo vai depender da disponibilidade dos elementos dessa montagem e o custo disso, ou seja, se o usuário ganhar uma Dental Eye II ou III de presente de um parente dentista ou achar uma a preço de banana no brechó da esquina ou no bazar da igreja, essa modificação pode até ser considerada já que — no fim das contas — você pode acabar com uma lente macro para sua digital e até uma câmera analógica de ótima procedência para uso geral (mais sobre isso abaixo).

Mas se a intenção é de pagar (talvez até caro) por uma Dental Eye apenas pra retirar a lente, acreditamos que isso talvez não valha a pena, já que podem existir opções melhores do mercado que podem performar até melhor, como a SMC Pentax M 100mm f4 Macro ou a Canon FD 100mm f4 Macro, ambas por sinal também baseadas no desenho Heliar.

De nossa parte, valeu pela farra e o prazer de desmontar e montar coisas. 🙂

Bonus Track:

O que fazer com o corpo da Dental Eye?

Como já dissemos antes, uma coisa que nos chamou a atenção no corpo da Dental Eye III é como ela se parece como a da Contax RX (à direita)…

Só que com menos recursos e controles, é claro:

Isso não é nenhuma coincidência já que, na época, a Kyocera/Yashica também fabricava SLRs da marca Contax, de modo que faz todo o sentido a empresa usar a mesma plataforma de hardware para ambos os equipamentos, permitindo assim o uso de muitas peças em comum e talvez até a mesma linha de montagem, reduzindo assim seus custos de fabricação, além de oferecer um produto de ótima qualidade e procedência para o cliente.

Segundo o manual do usuário, a Dental Eye III possui um fotômetro TTL que entra em ação quando o ring flash é desligado (embaixo) o que permite fazer a leitura da cena e ajustar sua velocidade de disparo que pode variar de 16s até 1/4.000s.

Se levarmos isso em consideração, nosso palpite é que é possível instalar uma lente com engate C/Y nessa câmera — como a Yashica ML 50mm 1:2 — e fotografar normalmente com ela…

… só que com o diafragma aberto ou fechado manualmente pelo usuário na abertura desejada, um procedimento conhecido como stop-down metering. Essa técnica por sinal remonta as primeiras câmeras reflex (como as Contax S e Exakta) sendo o seu maior incômodo é que a imagem tende a ficar cada vez mais escura a medida que fechamos o diafragma.

Fora isso, a Dental Eye tem um visor com bipartido rodeado por microprisma para ajudar no foco e conta com um LED verde que pisca indicando baixa luminosidade/longa exposição.

A exposição ainda pode ser automaticamente compensada em +/- 1 ponto de exposição e o ajuste do ISO só é possível via código DX gravado no cartucho do filme.

Ë meio que chato que o nosso corpo de 150 dinheiros veio com a cortina quebrada. Numa dessas além de poder usar a sua lente numa digital, teríamos uma Contax capada para impressionar as garotas e os amigos nerds.

Uma pena.

 

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

  • Sandro De Jesus Soares

    Nem terminei de ler ainda, mas quando vi a objetiva saindo do corpo da câmera tive que descer aqui pra comentar: Caraca, que FODA!
    Sou fotógrafo amador e cada vez mais apaixonado por esse universo da fotografia alternativa. Nagano segue sendo uma inspiração pra que eu entre de cabeça nesse mundo DIY

  • Adriano De Lima

    Realmente, mais um trabalho genial Sr. Nagano!

  • baubergo

    Um post clássico ztop que eu não via a muito tempo e que me deixou nostálgico. Sei que dá um trabalho monstruoso, mas tente fazer posts assim com mais frequência!

  • Parabéns pela matéria.
    Digna de zumo-caverna.