ZTOP

Vida sem celular: as primeiras semanas

Vida sem celular é um novo projeto do ZTOP: como a vida louca da metrópole e sua criminalidade nos pode fazer desacelerar em relação a gadgets e tecnologia. Agora, nosso chapa Bernhard Schultze conta como é viver sem telefone.

As primeiras 48 horas foram, como em qualquer desintoxicação de um vício, as piores.  Por umas duas semanas ainda levava constantemente a mão aos bolsos buscando o celular (leia a primeira coluna de Bernhard).

Quantas vezes não havia chegado ao trabalho, descoberto que havia esquecido o cujo dito e ficado o dia inteiro perdido imaginando quantas ligações e SMSs “importantes” estaria perdendo?

Passada a tremedeira desse período inicial, convenci-me de que meu desafio era sério, e realmente levaria a cabo os três meses sem o celular.

Começam a aparecer os primeiros problemas:

  • Fui tentar mudar a mensagem do meu celular, notificando os desavisados de que não ouviria correios de voz pelos próximos meses. Eis que sou informado que minha operadora não permite mais criar ou alterar a gravação de voz! Se em algum momento eu tive uma mensagem de saudação pessoal de caixa postal, eles já tinham se encarregado de apagá-la, sem que eu fosse comunicado. Inacreditável esse retrocesso.
  • Ainda preciso ligar para celulares, e a agenda fica, claro, no celular. Por sorte, tudo estava sincronizado com o Plaxo, e consigo acessar os números pelo computador.
  • Bloqueamos as ligações para celulares na agência, logo tive de incluir uma dose extra de créditos no meu Skype Out para poder ligar para outros celulares.
  • Um app oferece um nível adicional de segurança em meu serviço de e-mail, similar a um token utilizado por bancos. Tive de imprimir e carregar na carteira os números de backup para não ficar sem acesso.
  • Curiosamente, o que mais faz falta no celular, e ainda não resolvi o problema, é o despertador. Há anos não uso relógio. Este é, aliás, outra vítima da tecnologia. Tornou-se um objeto meramente decorativo de vestuário. É cada vez mais comum encontrar pessoas sem relógios de pulso. Há relógios por todo o lugar – carro, computador, celular. E era este último que fazia as vezes do despertador em casa.
  • Ouvir música ou e-books enquanto pedalo de madrugada / manhã, para espanto meu, parece não fazer falta. Por outro lado, tenho pedalado menos do que antes. Reflexo do tédio?
  • Ainda na área dos esportes, controlava meus trajetos de bicicleta pelo app Adidas MiCoach, que gravava via sinal de GPS do iPhone todo o caminho e o tempo percorrido. Interessante na primeira vez, inútil depois de 10 vezes fazendo o mesmo trajeto, uma vez que não estou treinando para qualquer competição.
  • Checar e-mails durante reuniões, apresentações, guiando? Sem comentários.
  • Mapas – esse é mais chato. Temos na SEO Marketing o conceito de uma agência totalmente digital. Tenho agora de imprimir em papel o trajeto para lugares mais complicados e só há uma impressora disponível, de utilização controlada.

Quanto às ligações de celular propriamente ditas… Sentia-me no começo como um indefeso adolescente sendo assediado pelos colegas fumantes da escola me tentando com  “é só uma tragadinha”.

Meus colegas não se conformam com o fato de eu não ter celular. Recebi sugestões de pagers (existe isso ainda?), celulares com teclado quebrado, linhas pré-pagas sem crédito, ou, a melhor de todas, andar com o celular escondido para os outros não perceberem que eu apenas fingia não utilizar o celular.

A esposa reclama que não consegue me achar, minha sócia idem, meus filhos nem se fala. Agora, se um cliente me liga e não me acha, faz a mesma coisa que eu faço – manda um email que será respondido quando a outra pessoa tiver tempo / interesse. Exatamente como há 15 anos, considerando obviamente que ambos já tivessem e-mails 15 anos atrás.

Outro problema é fazer ligações quando estou na rua. Tenho de controlar o impulso, anotar no caderninho (esse é outro que voltou à vida) o assunto para não esquecê-lo, e ligar assim que tiver acesso a um telefone. Acabo virando o chato: “Empresta o celular? ” O que leva obviamente à dúvida se a utilização de celulares de outros não é uma forma de trapacear minha abstinência, mas esse assunto deixo para vocês decidirem.

O fato é que, até há poucos anos, não havia celulares, muito menos smartphones. É impressionante como em poucos anos estes tomaram de assalto minha vida, para o bem ou para o mal. Tenho consciência da importância e benefícios de meus gadgets, mas rapidamente me acostumei a ficar sem eles. E o mundo continua girando…

No próximo artigo, abordarei as mudanças comportamentais, que não são poucas, de ficar desconectado.

 

———-

Os donos da casa comentam: Este ZTOP é bastante reticente a ter autores externos escrevendo por aqui.

No caso do Schultze, a coisa é um pouco diferente: conhecemos o cara faz algum tempo (o Nagano deve lembrar dele dos tempos de Intel), ele já prestou consultoria com a SEO Marketing para a gente (funciona, viu? :P ) e a ideia de contar um pouco sobre a vida semi-desconectada é bem legal. Ele vai escrever aqui todo mês pra contar suas aventuras sem estar sempre conectado em todo lugar. 

Não quero que ele chegue ao radicalismo do projeto do Paul Miller, lá no The Verge – um ano sem internet! -, mas desintoxicar aos poucos dos excessos da tecnologia é algo que consideramos muito positivo. E algo que quero aprender também (isso porque o Bernhard  não tem que moderar comentários…). E que venham os próximos meses.