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Um passeio pelo Museu da Intel

IDF 2012: Localizado na sede da empresa em Santa Clara, o Intel Museum é uma pequena jornada ao passado de uma empresa que vive de olho no futuro.

Entre as atividades “extra-curriculares” que a Intel programou para os jornalistas latino-americanos no IDF deste ano, houve uma visita ao museu da empresa, localizada no número 2200 do Mission College Boulevard em Santa Clara, no centro do Vale do Silício.

Para quem não sabe, este também é o mesmo endereço da sede administrativa da empresa que também abriga alguns laboratórios de P&D e até recentemente, uma fábrica de chips — a Fab D2 — mais usada para desenvolvimento de novos produtos e que foi desativada em 2010.

Ocupando uma área de aproximadamente mil metros quadrados, a entrada do museu fica ao lado da recepção principal e da lojinha da empresa. Eu já tive a oportunidade de visitá-lo em 2006 durante um Research Day, mas ele passou recentemente por uma grande reforma e modernização…

… o que de fato tornou esse espaço bem mais aberto, descongestionado e elegante, ao mesmo tempo que foram adicionados diversas telas e terminais multimídia o que  torna a exposição mais dinâmica e interativa, especialmente para o público jovem. Note o piso formado por grandes placas na forma de grade, que são do mesmo tipo usado no chão de fábrica da empresa.

Aparentemente, a Intel aproveitou essa deixa para dar uma limpada nas suas peças em exposição — abrindo espaço para novas atrações, além de outras que estão por vir. Por exemplo, senti a falta da linha de brinquedos Intel Play e dos chips Intel XScale, uma linha de processadores móveis baseados no Strong ARM que a Intel ganhou de brinde  junto com a compra da Digital e que foi vendida para a Marvell depois que ela decidiu estender sua plataforma x86 para o mundo dos PDAs e smartphones (= Atom).

A entrada é gratuita e a exposição é, de um certo modo, auto-explicativa. Mas o museu também dispõe de guias especializados para atender a grupos de visitantes que agendarem a visita antecipadamente, algo útil para excursões de escolas, grupos de turistas, jornalistas de tecnologia. No caso de crianças, a idade mínima recomendada é a partir dos oito anos.

Muitas das apresentações são interativas, o que ajuda a assimilar certos conceitos como o que é o sistema binário, o quão rápido é um processador, o quão pequeno é um nanômetro e por aí vai.

Mas como estamos em um museu, é claro que as grandes atrações são suas peças históricas. Por exemplo, este é um exemplar do módulo de memória 3101 Schotty bipolar lançado em 1969 e que é considerado o primeiro produto bem sucedido da empresa.

Para efeito de comparação, antes da invenção das memórias RAM de estado sólido, a tecnologia mais comum eram as chamadas memórias de ferrite (embaixo) como o exemplo abaixo, uma plaquinha de 10,8 x 10,8 cm de lado, que aparentemente é o mesmo usado no mainframe CDC 6600 com capacidade de armazenar ~4 KB de dados:

Como o próprio nome sugere, ele é formado por milhares de minúsculos anéis de ferrite entrelaçados por um igual número de fios de cobre cuja direção da corrente elétrica magnetizava os anéis de dois modos diferentes, determinando assim o seu estado lógico (0 ou 1).

Vale a pena lembrar que a Intel começou suas atividades como uma empresa de memórias RAM e que só desistiu desse mercado para se dedicar em processadores em 1985 devido à concorrência selvagem dos fabricantes japoneses.

Outro fato pouco conhecido é que em 1972 a Intel fabricou e vendeu relógios digitais sob a marca Microma e que inventou o primeiro visor “continuo” de LCD que dispensava a necessidade de pressionar de um botão para ver as horas a exemplo dos primeiros modelos a LED. Isso foi um ótimo negócio numa época em que esses acessórios eram considerados maravilhas tecnológicas e podiam ser vendidos por US$ 200 cada.

Mas a medida que o custo dessa tecnologia caiu (= lei de Moore?) e a concorrência baixou seus preços para menos de US$ 20 — a Intel concluiu que era hora de saltar fora dessa barca furada e vendeu esse negócio em 1978 para uma empresa suíça (que produziu o modelo com visor analógico embaixo à direita) e os estoques remanescentes para a Timex.

Interessante notar que um anos antes dessa aventura horológica, a Intel criou a pedido da Busicom (uma fabricante japonesa de calculadoras) o famoso chip 4004. Naquela época, a Busicom estava desenvolvendo uma nova família de calculadoras de mesa baseada em um processador altamente especializado (cujas funções eram separadas em três chips) e procurou a Intel para co-desenvolver esses componentes e fabricá-los com exclusividade para ela.

Mas em vez de simplesmente atender o cliente, a Intel propôs uma solução bem mais simples baseada em quatro chips diferentes (e que podem ser vistos embaixo): o 4001 (uma ROM de 2.048 bits equipada com uma porta de I/O programável de 4 bits), o 4002 (uma memória RAM de 4-registros com 20 endereços de 4 bits também com uma porta de 4 bits), o 4003 (um chip de expansão com porta serial/paralela) e finalmente, o 4004 (um processador de 4 bits).

A grande sacada desse projeto é que o 4004 pode ser considerado o primeiro processador de uso geral disponível comercialmente, o que permitiu o seu uso em diversas aplicações além daquela que ela foi originalmente concebia. Formado por apenas 2,3 mil transístores, o 4004 tinha o mesmo poder de processamento do ENIAC, o primeiro computador totalmente eletrônico.

Reza a lenda que logo após o início da produção, a Busicom pediu para a Intel baixar o preço desses chips o que levou ambas as empresas a renegociarem o acordo original. Dai foi acertado que a empresa japonesa a passaria seus direitos de exclusividade sobre o design e comercialização para a Intel por US$ 60 mil que, por sua vez poderia a vender a plataforma 4004 para outros clientes, aumentando assim a sua escala de produção, reduzindo assim os seus preços. Esse negócio mostrou ser bastante vantajoso para a Intel, já que a Busicom faliu em 1974.

Neste mesmo ano, a Intel lançou outro marco na história para a empresa — o processador Intel 8080A de 8 bits e 2 MHz — uma evolução do 8008 que ficou famoso…

… por equipar o Altair 8800, considerado o primeiro micro-computador para uso pessoal (ou quase). O 8080 também inspirou a criação do Zilog Z80 que, junto com o sistema operacional  CP/M foi a plataforma dominante nos primeiros anos da computação pessoal baseado em sistemas de 8-bits, do mesmo modo que é nos dias de hoje a plataforma x86 com Windows.

Outro chip histórico foi o Intel 8088 de 1979 — na verdade um 8086 modificado pelo escritório de design de chips da Intel em Haifa (Israel) que colocou um barramento de dados de 8 bits no lugar do de 16 bits do 8086 original — baixando assim o custo final da plataforma já que assim ele poderia usar os mesmos componentes usado em outros micro-computadores de 8 bits da época…

… o que viabilizou a criação do primeiro IBM-PC em 1981 — o modelo 5150 — cuja concepção e design (gabinete + teclado + monitor) sobrevive até hoje os dias de hoje como um padrão de mercado de fato.

A partir daí, os processadores Intel continuaram a evoluir sendo que cada nova geração de chips era facilmente identificável deviso ao uso de um sistema numérico: 80286, 80386, 80486 e assim por diante.

Entretanto, desde a introdução do 80286, muitas empresas de hardware e software (incluindo até a Microsoft) começaram a adicionar os números 286 ou 386 ao nome dos seus produtos, o que incomodou o pessoal de Santa Clara ao ponto de levar o caso para os tribunais, alegando o uso não autorizado de suas marcas.

O resultado foi que a justiça decidiu que “números” não podem ser patenteados o que fez com que a Intel abandonasse a ideia de chamar seu processador de quinta geração “80586” e lançou o seu primeiro chip com nome comercial: O Intel Pentium.

Curiosamente, o modelo acima não é exatamente o primeiro Pentium de 1993 (também conhecido como P5 de 50, 60 e 67 MHz) e sim a sua segunda versão (conhecida como P54C de 75, 90 e 100 MHz) lançada no ano seguinte. Isso explica seu apelido: Pentium 90, por causa do seu clock de 90 MHz (duh!)

Também existe uma outra área do museu que mostra as primeiras campanhas da empresa para o consumidor final. A primeira de todas foi chamada “Red X” de 1989 que pintava na forma de um X grafitado sobre o número 286 e um “SX” sob o número 386. A idéia nesse caso era de transmitir a idéia de que o novo processador Intel 80386 SX era superior ao seu antecessor, o Intel 80286.

Em 1991 a intel introduziu pela primeira vez a sua campanha “Intel Inside”. Este é o primeiro kit de apresentação dessa nova iniciativa…

… que também introduziu o famoso selinho do processador que atestava para o consumidor que o equipamento vinha equipado com um chip/tecnologia “legítima” da Intel. Depois disso, essa estratégia também foi usada para identificar outras tecnologias da casa como a plataforma móvel Centrino, o vPro e mais recentemente os Ultrabooks.

Uma das poucas peças no museu que não se refere a memórias e processadores é esse módulo de transmissão de dados por fibra óptica totalmente baseada em silício (daí o nome desse projeto — Silicon Photonics). O protótipo abaixo foi capaz de transmitir dados a 50 gigabits por segundo a distâncias de até 100 metros que pode levar ao desempenho de uma futura interface que alto desempenho que poderá suceder o USB 3.0 e até o Thunderbolt em meados de 2015.

Outra parte do museu é dedicado ao processo de fabricação de chips de silício, como esse painel em tamanho real que reproduz as diversas chapas usadas para imprimir os diversos componentes que serão aplicados sobre a pastilha de silício por meio  de um processo chamado Fotolitografia.

Nesse caso, trata-se do projeto do chip 4004, cujas trilhas originais foram traçadas e cortadas manualmente com o uso de um estilete.

Aqui um diagrama de uma fábrica de processadores e toda a infraestrutura necessária para manter o seu interior livre de pó e de outras impurezas. Por ser uma fábrica altamente automatizada, o número de pessoas que trabalham nessas plantas não é tão grande quanto se imagina.

Este é um lingote de silício no seu estado puro de onde são retirados os discos de 300 mm que, depois de polidos, são a base dos wafers usados nas fabricação dos chips. Ela tem 30 cm de diâmetro, pesa 133 quilos e curiosamente, não é produzida pela Intel e sim adquiridas prontas para uso de outras empresas como a SEH America.

Aqui o produto acabado. Note que com o passar dos anos, o tamanho do wafer que começou com 2″ em 1969, passando para 3″ (1972), 4″ (1976), 6″ (1983), 8″ (1993) e saltando para os atuais 300 mm (ou 12″ desde 2000).

No fim do passeio, existem novos displays sendo que um deles homenageia Robert Noyce, conhecido como o inventor do circuito integrado e co-fundador da Intel junto com Gordon Moore em 1968.

Noyce era tido como um líder carismático e bastante querido pelos funcionários — que ele tratava como família — e respeitado tanto pela indústria quanto pela comunidade o que lhe valeu o apelido de “prefeito do Vale do Silício”. Um programa de TV que retrata bem sua vida e carreira é o documentário “The Podfather” da BBC Four que pode ser visto no YouTube.

Eu me lembro que numa rara aparição em um IDF (com direito a foto de tietagem), Moore disse numa entrevista ao vivo que o nome original da nova empresa era para ser algo como “Moore & Noyce Electronic Company” mas ambos concluíram que esse nome não era lá grande coisa de modo que eles compraram o nome Intel (de Integrated Electronics) de uma outra empresa.

Outro display mais recente mostra o crachá de visita de uma figura ilustre da política americana, que até autografou um wafer de silício que está exposto no museu.

No fim das contas, vale a visita?  Eu diria que sim já que além da entrada franca, o prédio localizado no número 2200 do Mission College Boulevard não deixa de ser um dos pontos de peregrinação do Vale do Sílicio e que oferece algo para o visitante ver e curtir,  ao contrário de outros “marcos históricos” da região como a Garagem da HP, o laboratório PARC, a sede da AMD ou até mesmo casa dos pais de Steve Jobs onde o visitante não tem muito o que fazer além de esticar o pescoço por cima da cerca ou fazer uma pose para tirar uma foto na frente do imóvel e sair correndo antes que a vizinhança chame a polícia.

E falando em fotos, a sede da Intel tem até um local especial para isso, com direito a marca no chão que mostra o melhor local e direção para onde o visitante deve posicionar sua câmera.

E não é que funciona? 🙂

 

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.