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Como nasce um tablet nacional?

Projetar, fabricar e vender PCs é tarefa árdua em um mundo onde tablets e smartphones começam aos poucos a complementar e substituir o velho e bom computador com Windows.

Exemplos de crise não faltam. Nomes grandes, como HP, não lançam nada relevante faz um bom tempo (e até tentam entrar na era dos tablets de forma errada), e a Dell segue o caminho de fechar seu capital (e causar a ira de acionistas).

Mas também existe o outro lado: fabricantes que conseguem mostrar algum tipo de inovação (Asus e Lenovo, com linhas de produtos mais inovadoras e com um pé no mundo pós-PC) e crescer nesse mundo selvagem.

E os fabricantes nacionais? No velho modelo de “vamos fabricar computadores para as massas”, a estratégia sempre foi ir a Taiwan (numa Computex da vida), ver as melhores ideias, fechar negócios e importar peças para montar aqui, com subsídios do governo. Dava certo, mas hoje não é mais o modelo ideal.

Pra entender o que está acontecendo com o mundo dos PCs made in Brazil, o pessoal da Positivo Informática me chamou para passar um dia lá na fábrica de Curitiba e ver todo o processo de produção – e como a ideia de “vou a Taiwan e não faço nada de inovador” já ficou para trás.

O primeiro passo, mais importante, é falar sobre a estratégia da Positivo em um mundo pós-PC (um post só sobre inovação, pesquisa, tortura de hardware e o crescente relacionamento com o Google está a caminho).

Falar com fabricantes nacionais, confesso, sempre foi uma dificuldade.

A maioria das empresas ou tem uma estrutura familiar fechada (caso da CCE, recém-comprada pela Lenovo; numa visita à fábrica de Manaus em 2006, acho, encontrei jornalistas locais entusiasmados porque a CCE iria falar pela primeira vez com a imprensa desde sempre) ou simplesmente é avessa a testes, reviews e comparativos, com medo de tomar uma bronca (que muitas vezes é necessária) com medo de queimar seu produto.

Ou simplesmente é estranha mesmo: em 2010, a Semp Toshiba lançou um DVD player e, após um atraso homérico, o chefão da companhia chegou, mas ninguém podia tirar fotos dele por questões de segurança (detalhe: o figura já tinha saído, meses antes, na capa da revista Exame). 

Momento mea culpa: também existe uma falha de comunicação do lado da mídia.

Ninguém hoje entende direito o que é classe C – talvez porque não veio de lá ou não tem a menor ideia, já que o que importa é dar pageview com rumor de novo iPhone, coisa de classe A-B (e reclamar do preço depois, outro clássico do jornalismo de tecnologia brasileiro. “O produto é bom, mas é muito caro” é frase recorrente em sites, jornais e revistas por aí. Estamos em um país em que pais gastam milhares de dólares para seus filhos voarem de classe executiva para Miami, mas isso é outra história de valores).

A “classe média emergente” é um grande mistério para qualquer empresa de comunicação (grande ou independente), pra dizer a verdade.  E quando alguém cita a Positivo, é muito fácil torcer o nariz (se bem que em momentos do passado foi por merecer). 

Também, ainda na questão mídia, muito fabricante prefere mandar o topo de linha, sabendo que vai ter uma boa recomendação (produtos tranqueira, como diz o saudoso Mário Nagano, também são muito fáceis de testar e bater na hora de escrever).

Existe ainda uma área cinza enorme de produtos intermediários, com preços menores e muitas vezes bons recursos, que ninguém fala. Não é à toa que o post mais lido em 2012 neste ZTOP foi o review de um smartphone mid-range. Não era um sonho de consumo inacessível, era um produto que cabia no bolso da maioria.

uma parte da fábrica em Curitiba

Mas voltando à Positivo: sim, eles ainda figuram entre os principais fabricantes brasileiros. E foram muito simpáticos em me receber na sua casa, sem ressentimentos (né, Rosinha?)

Nunca vou me esquecer da entrevista que fiz, em 2007, com um figurão da HP num evento internacional. “Qual seu principal concorrente no mercado brasileiro?“, perguntei. “A Positivo é minha pedra no sapato“, disse.

Então, sim, a Positivo ainda tem relevância no mercado nacional, vende PCs e notebooks de olho nessa “nova classe média emergente”, nas palavras de Adriana Flores, diretora de desenvolvimento de produtos da companhia. Resumindo a história, a Positivo diz que quem comprou seu primeiro PC da marca seguiu para seu notebook (ou mais de um) e o caminho natural, claro, é o primeiro smartphone e o tablet.

Ainda vendem bem: o último balanço divulgado pela Positivo, em novembro, citava vendas de 619,6 mil unidades vendidas no trimestre, com 1,6 milhão de PCs acumulado no ano. Lucro líquido com margem baixa (1%), mas ainda lucro. O mercado local é, como disse lá em cima, uma selva. Eles acharam seu nicho (a tal “classe média emergente”) e conseguem ganhar dinheiro com isso.

Vale lembrar que, além da “classe média emergente”, a Positivo tem um enorme cliente: o governo brasileiro.

Só em tablets, a companhia ganhou parte de uma licitação para fornecer 900 mil unidades para o Ministério da Educação (governo e educação representam cerca de 10% do mercado nacional de PCs, segundo o IDC). Então, aproveitei a visita à planta de Curitiba para ver como é feito um tablet, já que nunca tinha visto esse tipo de linha de produção.

Adriana Flores, com o apoio de Germano Couy, vice-presidente de produtos de consumo da Positivo, é enfática em uma resposta: tablet é importante, mas ainda não será o carro-chefe da casa por algum tempo. De qualquer modo, o portfólio de tablets e smartphones tende a crescer durante o ano.

Motivo para investir em tablet também não falta: o IDC estima que o mercado brasileiro de tablets vai atingir 5,4 milhões de unidades em 2013. Para efeito de comparação, esse mercado cresceu 127% entre 2011 e 2012. O mercado de PCs (somando desktops e notebooks), no mesmo período, tinha a previsão de crescer apenas 2%. Argh.

a fila pro almoço no refeitório

Alerta de spoiler: se você já viu como é feito um PC, uma placa-mãe ou um smartphone, não muda muito.

A fábrica de Curitiba ocupa uma área de 59 mil metros quadrados, com 2,8 mil funcionários em três turnos diários. A planta consegue produzir por mês 400 mil computadores (35% de desktops e 65% de notebooks e tablets), 180 mil placas-mãe, 60 mil placas de memória e 60 mil gabinetes. Some aos números mensais a fábrica de Ilhéus (10 mil desktops e 70 mil monitores), de Manaus (20 mil notebooks) e da Terra do Fogo, na Argentina (60 mil notebooks e 50 mil placas-mãe).

No caso dos tablets, a placa-mãe é fabricada localmente, na mesma área das placas-mãe de PC, com uma sequência de maquinário novo que vai juntando os componentes, com a impressão das placas (são duas por vez, por conta do menor tamanho).

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… que seguem para o neurótico robô montador de componentes…

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E em cada carretel, um pequeno transistor ou peça:

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E depois segue para o forno de solda: aqui, a placa vista por baixo, sem muitos componentes…

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…e finalizada, já com chips, memória e pronta para instalação. Depois a placa passa por uma fresa para separação das duas unidades (aqui, vemos a do tablet de 7″).

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Depois da separação, a instalação na tela e, antes do fim do processo, é feita a gravação do sistema operacional.

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De lá segue para a fábrica de tablets propriamente dita, que ocupa uma ou mais linhas de produção sequencial da Positivo. Uma curiosidade é que notebooks e tablets são feitos em sequência industrial (uma pessoa instala uma coisa, que passa pra próxima e assim por diante, até o fim). Os desktops ainda são montados todos por uma pessoa só, em um processo que deve se tornar sequencial em um futuro próximo.

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E na linha de produção, o tablet segue para testes…

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…e mais testes…

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…e finalização. Se for um Ypy para o varejo, ganha uma capinha traseira de cor metalizada.

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Se for um tablet vendido para o governo, ganha uma tampa plástica amarelo-gritante, com informações de que é um tablet educacional (e se for roubado, é inútil tentar usar).

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E finalmente a embalagem. De novo, os modelos para o varejo ganham caixas individuais seladas, e os modelos do MEC seguem vários por embalagem até o destino final.

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Aviso: Henrique voou a Curitiba a convite da Positivo. Todas as opiniões e fotos são dele. 

Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin