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Nokia e os serviços no celular

Pekka PohjakallioPekka Pohjakallio, finlandês de nome impronunciável para brasileiros (e para o resto do mundo, como ele mesmo admite), gosta de jogar tênis e de visitar churrascarias quando vem ao Brasil ou viaja pelo mundo.

Ele é vice-presidente de software e serviços da Nokia e suas preferências – tênis e churrasco – podem, em breve, fazer parte de informações básicas que aparecerão no seu celular algum dia.

Pohjakallio esteve no Brasil semana passada. Ele já foi o cara que cuidou de produtos da N-series (os celulares top de linha da Nokia) e que, um dia, ao encontrar com este blogueiro/jornalista na CES 2007 (um dia antes da Apple lançar o iPhone), disse:

“Se a Apple lançar um celular, será bom para a Nokia. Mostra que estamos no caminho certo em multimí­dia.”

Ao reencontrar com Pohjakallio (dono de um MacBook preto, por sinal), agora com o iPhone consolidado no mercado de celulares (pelo menos no norte-americano e no vasto gray market brasileiro com suas versões desbloqueadas), repito a pergunta de mais de um ano atrás.

A resposta, agora como chefão de serviços e software da Nokia : “O comentário ainda é válido. Hoje sabemos mais sobre o aparelho, e ele ajudou a mostrar ao mercado que é possí­vel usar serviços de internet no celular, que internet é possí­vel e pode ser uma experiência interessante”, diz.

Mas, então, a Nokia tem algo na manga para combater o concorrente iPhone? “A mensagem é que não dá para comparar aparelhos. Estamos indo muito bem hoje, nosso trabalho é fazer com que os serviços que criamos funcionem bem com os telefones, tornar as pessoas apaixonadas de novo pela Nokia. E lembrar que a internet é experiência no browser, não é algo apenas que se define como ‘mobile'”, comenta.

“A experiência completa tem que trazer pessoas, lugares, mí­dia para um único lugar”, diz Pohjakallio, citando o velho e bom tema da companhia: connecting people.

Aí­ sim chegamos ao tema do tênis e da churrascaria: e se o dispositivo móvel fosse capaz de identificar sua localidade automaticamente e trazer, sozinho, informações sobre o que gosta? Ao desembarcar em São Paulo – ou em Buenos Aires – , uma espécie de mashup mobile daria as informações de modo simples e direto para um cara como Pohjakallio, que provavelmente não encontra muitas churrascarias em Espoo, na Finlândia. “O celular sabe o que eu faço”, prevê.

Mas isso é futurismo ainda. Hoje os tais serviços Nokia voltados para a internet (e para a transformação da própria empresa em uma companhia de internet) já surgem aos poucos – é a plataforma Share on Ovi, a loja de músicas na Europa, a plataforma N-Gage e o software de mapas (pausa para números enormes: a Nokia prevê que em 2008 vá colocar no mercado 35 milhões de aparelhos com GPS embutido em todo o mundo. Aparentemente é um número maior que os fabricantes convencionais de dispositivos com GPS/mapas/informação de trânsito).

A conversa com Pohjakallio não ficou apenas em torno dos serviços. Discutimos funções da chamada “social media” – para o qual ele considera o celular um item essencial, pois permite o compartilhamento imediato de emoções, fotos e sensações para a web, mas ainda considera que a diferença de gerações – ele estaria em uma espécie de “idade média” versus novas gerações ultraconectadas – acaba sendo um fator importante. “Redes sociais móveis são um fator cultural sim”, defende o finlandês. E por isso a Nokia investe nelas (“Você vai confiar em uma empresa desconhecida ou na Nokia?”, questiona.)

E por causa disso caí­mos na questão dos celulares, mais especificamente no seu futuro. E Pohjakallio defende a idéia essencial de entender quem é seu público-alvo. “Eu tenho um N95. Uso ele pra vida profissional, ouvir música, tirar fotos, jogar. Mas tudo depende. Meu pai não quer um N95. Ele quer fazer ligações apenas. Ele quer simplicidade, usabilidade, resistência.”

E continua: “Hoje o touchscreen virou mantra no desenvolvimento de celulares (nota do editor: não, ele não disse quando sai o touchscreen da Nokia). Ecologia também. Não adianta tentar fazer ficção cientí­fica pra adivinhar o futuro. Em 1995 ninguém imaginava que os celulares teriam GPS, MP3 era apenas coisa para poucos naquela época, nem se pensava em redes sociais”, comenta Pohjakallio.

“Acredito que música ainda hoje seja usada de modo básico, você compra e ouve, acabou. E se compartilhar com amigos por proximidade? E conectar a outros eletrônicos de consumo da casa com o mí­nimo de cabos e conectividade?”.

Ok, sr. Pohjakallio, entendi a mensagem. Mas qual seria sua visão “sci-fi” pro futuro dos celulares, para fechar esta conversa? “Minha visão pessoal é que a tela ainda é um grande gargalo. Com pequenos projetores integrados, dá para mostrar em dimensão maior as imagens, seja na mesa ou na parede.” Espero que na próxima visita de Pohjakallio ao Brasil o celular dele já consiga identificar sozinho as churrascarias e academias de tênis no caminho.

Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin