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Megaware: faça o tablet direito (ou volte para os PCs)

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A Megaware mostrou seus ultrabooks no começo desta semana e disse que tinha dois tablets na manga. Quando eles saem? A fabricante nacional não diz: trouxeram os tablets para “mostrar para o varejo e ver o retorno” durante a Eletrolar 2012.

Compensa lançar um tablet só pra ser mais um na prateleira do varejão popular?

Então, vale a máxima do mercado de computadores: crie um ecossistema ou sofra com a falta dele e suma do mercado.

Sim, eu sei que o termo “ecossistema” é batido, mas vale lembrar que o sucesso do iPad não se deve somente ao tablet, mas todo o mundo dos desenvolvedores que já faziam apps para iPhone e migraram ou tiveram novas ideias para o iPad. Era fácil, viável e intere$$ante (um viva para a economia dos aplicativos).

No mundo Android, porém, a coisa não é bem assim. Adoro (e tenho) o Android como sistema operacional do meu smartphone, mas hoje eu não tenho como recomendar a compra de nenhum tablet que não seja o iPad.

O ecossistema de apps do Android-telefone não entendeu mais uma fragmentação do sistema (telefones 2.x versus tablets 3.x, em OSs diferentes que se “fundiram” em um só com o Android 4.0) e simplesmente faltam apps bacanas neste universo. O desenvolvedor tem que fazer rodar no 2.x, um diferente para o 3x, ou só para o 4.0 (caso do próprio Google, que lançou o Chrome só para essa versão).

E fica a questão: tem concorrente da Megaware que fez direito?

Mais ou menos: eu não recomendo o Positivo Ypy para ninguém, mas a turma de Curitiba emplacou com o governo para o mercado educacional (o forte deles). É um ecossistema, certo?

O tablet da Itautec foi pensado para o mundo corporativo, coisa que nenhum outro local tinha feito ainda (e que vai ser atropelado pelos tablets com Windows 8, mais amigáveis a esse universo). São dois exemplos de fabricantes que têm planos que incluem ecossistemas.

E pensar em incentivar desenvolvedores de apps também é um modo de fomentar seu ecossistema. Que tal um killer-app (TV digital? Conteúdos online exclusivos?) que só vem no tablet Megaware?

Por outro lado, um tablet “limpo”, com Android 4.0 e sem porcarias instaladas pode ser interessante, se tiver bom preço e boa configuração – e um bom plano de atualizações de sistema operacional para o futuro. As duas amostas que vi na Eletrolar estavam com o Android 4.0 limpinho, isso é bom.  A ideia aqui é ter fôlego para tentar brigar com a turma do oriente (Asus, Samsung…) no velho oeste que a Megaware já conhece bem: o varejo brasileiro.

Bons exemplos lá de fora também existem – e olha só, são do tamanho de um dos modelos propostos pela Megaware: 7 polegadas de tela (o outro é de 9,7″. Kindle Fire e Google Nexus 7, envoltos em um ecossistema de consumo de mídia, são os reis dos tablets pequenos lá fora (enquanto o grande novo rumor não acontece). Tem a terceira via também: Windows RT, mas acredito que um fabricante nacional ainda vai demorar para adotar a solução nova da Microsoft – se é que algum OEM mundial vai ter coragem de concorrer com o Surface.

Fora o ecossistema, a qualidade do hardware é importante.

Sei que os tablets virão importados da China, mas é melhor pagar um pouco a mais por um produto de qualidade (e cobrar por isso, ou reduzir sua margem de lucro) para manter o consumidor (e suporte, garantia,RMA etc.) do que cobrar barato (e não dar suporte, garantia, RMA etc.) e perder consumidores a médio prazo (e sei que o varejista que encomenda milhares de peças vai te encher para trazer muito barato).

A história do mercado brasileiro de PCs está cheia de exemplos assim – também vale para carros, roupas e revistas de tecnologia. Seu consumidor paga barato uma vez e, quando quebra, e compra outro do concorrente que cobra mais caro.

Camilo Stefanelli, diretor de produtos da fabricante nacional, foi enfático durante a coletiva na Eletrolar: “Não é um trabalho fácil. É um fabricante brasileiro combatendo os fabricantes internacionais.” Menos, Camilo, menos. Não se posicione como o Dom Quixote dos tablets, não coloque qualquer coisa na loja, faça a coisa direito. O consumidor consciente agradece.

 

Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin