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Hands-on: Objetiva Panasonic Lumix G 3D

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Prevista para se aposentar (ou mais exatamente sair de catálogo) ainda neste ano, a excêntrica objetiva 3D para Micro Four Thirds da Panasonic caiu tanto de preço que pode ser uma interessante compra para aqueles dispostos a conviver com suas limitações (que não são poucas, diga-se de passsagem).

Na história deste ZTOP, acho que nunca acompanhamos tão de perto a história de um produto (ao redor do mundo) como a lente 3D da Panasonic para padrão micro four-thirds. Desde o seu anúncio em agosto de 2010, cruzamos com ela na IFA da Alemanha, na CEATEC no Japão e até brincamos um pouco com ela em uma demo com a Lumix GH2.

Mas depois que ela chegou oficialmente no mercado no início de 2011 pelo preço sugerido de US$ 250 nos EUA, ela parece ter recebido do mercado o mesmo tratamento frio e indiferente de outros produtos 3D, o que fez com que a Panasonic decidisse pela sua saída do mercado ainda neste ano (fato confirmado por nós durante um papo e outro com o pessoal da Panasonic durante o recente lançamento de câmeras em Sonoma).

Mesmo assim, isso era previsível: a lente está sendo vendida com generosos descontos em sites como a Amazon.com, que a oferece (até a última vez que consultamos) pela bagatela de US$ 63:

Ou até menos, caso da B&H, que chegou a vender a lente por apenas US$ 49!

Isso faz dela a objetiva Micro Four Thirds mais barata do mercado, perdendo talvez apenas para a Wanderlust Pinwideque nem lente tem. De fato, ela está tão em conta que muita gente está comprando uma de farra, mesmo que seja só para deixar de enfeite na sua coleção de lentes. O que — inicialmente — foi o meu caso:

Depois de brincar um pouco com ela, eu concordo que se trata de uma lente bem temperamental e difícil de usar. Mas se conhecermos suas limitações e soubermos tirar proveito de suas virtudes, ela é capaz de produzir resultados muito interessantes para uma lente de 50~60 dólares.

Então vamos por partes.

Primeiro suas especificações técnicas: a Panasonic Lumix G 12.5mm f/12 3D é uma lente leve (45 gramas) e pequena (5,65 cm de diâmetro e 2,55  comprimento). Seu padrão de construção é o mesmo das outras lentes da casa, com corpo de plástico com excelente acabamento e engate em metal. E, ao contrário da Olympus, ela ainda é fabricada no Japão:

Fora isso, ela é formada por duas pequenas objetivas de quatro elementos em três grupos (que lembra vagamente uma Tessar) com distância focal de 12,5 mm (equiv. 65mm) /f12 (fixa, já ela não tem diafragma) separadas 1 cm uma da outra. Elas ficam protegidas atrás de uma janelinha de vidro meio retangular com tratamento anti-reflexivo de múltiplas camadas (multi-coated).

Assim, estamos falando de uma lente bem escura, com foco e abertura fixa, sem diafragma, foco automático, estabilizador de imagem e que não possui rosca de filtro, muito menos parassol. Fora isso, sua abertura (f12) é tão pequena que qualquer objeto na cena  a partir de 60 cm até o infinito fica em foco, o que — de um certo modo — explica por que ela não possui mecanismo de foco muito menos sistema de estabilização de imagem.

Isso faz com que a Lumix G 3D seja meio que um antagonismo, já que todas essas características podem contribuir (de um jeito ou de outro) para que um fotógrafo amador ou mesmo um entusiasta mais desavisado tire uma foto realmente ruim — o que é algo inesperado (ou mesmo intolerável) na nossa era de equipamentos idiot-proof auto-tudo.

Fora isso, a Lumix 3D não pode ser usada em qualquer câmera Micro Four Thirds incluindo as DSLM da Panasonic de primeira geração como as G1, GH1 e GF1 e (acredito eu) quase todas as câmeras da Olympus, exceto a nova OM-D EM-5, que possui um modo 3D entre seus modos de cena e que utiliza a técnica de tirar duas fotos levemente deslocadas para formar um estereograma em 3D.

Mas ao instalarmos a lente 3D da Panasonic, a câmera automaticamente reconhece a mesma e se comporta como uma câmera normal, gerando um estereograma com apenas uma exposição.

Curiosamente, essa informação é vagamente citada numa nota de rodapé na página 61 do manual do usuário da EM-5. Note também que as imagens em 3D têm seu tamanho limitado a 1.920 x 1.080 pixels quando tirada com uma lente convencional e 1.820 x 1.024 quando tirada com a lente Lumix G 3D. Isso porque acredita-se que a melhor maneira de se ver essas imagens é em uma TV de tela larga.

Para quem não sabe, as fotos 3D são gravadas num formato de arquivo próprio chamado MPO (Multi Image Object), um padrão criado pela CIPA que encapsula duas ou mais imagens em jpeg dentro de um único arquivo e adotado por diversos fabricantes que trabalham com imagens em 3D como Fujifilm, Sony, Panasonic e até Nintendo. Para facilitar as coisas, além do MPO, a câmera também gera uma cópia “2D” em jpeg para facilitar o gerenciamento dessas imagens.

Fotografando em 3D:

A experiência de fotografar com essa lente estéreo é meio que uma volta ao passado, já que ela me lembra da época em que as pessoas tiravam fotos com câmeras descartáveis, em especial aquelas que nem tinham flash embutido:

Isso porque em vez de sair clicando tudo que estiver ao seu redor, o usuário de uma câmera dessas precisa seguir algumas regras básicas para conseguir uma boa foto. Por exemplo:

  • Fotografar apenas em locais bem iluminados, de preferência sob o sol forte.
  • Posicione-se de modo que a luz do sol ilumine o seu assunto de frente e não por trás.
  • Sempre respeite a distância mínima de foco — no nosso caso, a partir de 60 cm (até o infinito). Mais perto que isso, as fotos sairão desfocadas.
  • Ao bater a foto, segure a câmera com firmeza, segure a respiração e pressione gentilmente o botão disparador para minimizar trepidações.

Além disso, devido ao posicionamento das lentes, as fotos devem ser feitas com a câmera alinhada na horizontal e nunca na vertical. Também notamos que, nesse modo, a OM-D não dispara o seu flash e não pode ser usada para gravar vídeos (boo!).

Respeitando-se todas essas regras é possível obter boas fotos com essa lente:

Obviamente, as imagens acima são os jpegs em 2D gerados pela câmera. Mas para ver as imagens realmente em 3D é necessário o uso de um equipamento apropriado, sendo que o mais recomendado nos dias de hoje é a TV 3D. Na falta desta, uma alternativa é o uso de um Nintendo 3DS, já que seu sistema de câmera 3D é compatível com o padrão MPO. Basta copiar esses arquivos 3D para um cartão SD e inseri-la no slot do console:

Outra alternativa meio capenga e totalmente retrô é converter o arquivo MPO em uma imagem anaglífica. Existem diversos programas (até freewares) que fazem essa conversão, sendo que o mais simples e direto é o MPO2ANAGLYPH, um pequeno utilitário gratuito que faz parte do pacote MPO-Toolbox e que pode ser encontrado aqui.

Tudo isso mostra que a Lumix G 3D é um produto interessante, porém limitado e o pior, mal compreendido pelo mercado. Ele nasceu numa época em que se acreditava que o padrão 3D era o bicho e iria conquistar o mundo, o que inclui na sua grande maioria de consumidores leigos que não estão interessados em saber que diabos o que é distância mínima de foco ou por que as fotos só ficam boas em dias claros sob sol forte. E pelo preço sugerido de US$ 250 nos EUA, eu acho que o consumidor deveria merecer algo mais fácil de usar e de resultados mais garantidos. De fato, a Panasonic tenta consertar isso com a nova DMC-3D1, um modelo compacto lançado na última CES, só que desta vez com uma câmera totalmente dedicada para 3D.

Assim, não é de se estranhar que a Panasonic decida pelo fim da produção dessa lente que, na minha opinião, realmente não vale US$ 250. Mas por US$ 65 ela começa chegar nas mãos de fãs, entusiastas e modders de fotografia que começam até a modificá-la (aqui, aqui e aqui) para obter resultados bem mais interessantes, o que pode levar a uma redescoberta ou até mesmo a redenção dessa pequena lente de dois olhinhos.

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.