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Célula de combustí­vel: energia limpa, porém “barata”?

Uma das grandes promessas da ciência para obter energia limpa, nos próximos anos, é a chamada célula de combustí­vel (Fuel Cell), nome pomposo que não foi inventado por William Robert Grove – que, em 1839, foi o primeiro a desconfiar que seria possí­vel gerar energia simplesmente invertendo o processo da eletrólise da água.

Para testar suas idéias, ele montou duas garrafas – cada uma com uma tira de platina isolada no seu interior -, que, depois de imersas numa solução de ácido sulfúrico, começaram a gerar uma leve corrente elétrica em seus eletrodos, ao mesmo tempo em que houve a formação de água dentro das vasilhas.

O nome “célula de combustí­vel” só foi cunhado em 1889 pelos quí­micos Ludwig Mond e Charles Langer, quando tentaram construir a primeira célula funcional, usando gás de carvão industrial e ar.

Essa tecnologia andou meio na obscuridade por quase um século, até que ela voltou í  moda nos anos 1960 com a primeira crise do petróleo e mais ainda com o projeto Apollo, que usou células de combustí­vel para gerar energia para a nave, além de água para consumo dos astronautas.

Os hí­bridos nerd/cinéfilos podem ter notado várias referências í s células de combustí­vel no filme Apollo 13 (EUA, 1995), dirigido por Ron Howard.

Vantagens e desvantagens

Dali para cá, a célula não parou de evoluir com várias empresas propondo o seu uso em carros, residências (por meio de geradores domésticos) e até eletrônicos de consumo, como notebooks e handhelds a partir de uma tecnologia chamada DMFC (Direct Methanol Fuel Cell), que utiliza metanol em vez do hidrogênio como combustí­vel. Isso permitiu o desenvolvimento de células menores e mais práticas.

A promessa é de uma fonte de energia mais potente, de recarga “imediata” (já que ela não precisa ficar horas ligada í  tomada) e ecologicamente mais amigável, uma vez que produz menos resí­duos sólidos (no máximo um reservatório vazio que poderia ser reciclado).

Apesar disso, seu uso comercial tem enfrentado alguns problemas de ordem prática e até legal. A saber:

Como o metanol é um lí­quido inflamável, existe a resistência – ou melhor, proibição ferrenha – das agências governamentais dos EUA em liberar o seu uso em aviões, onde hoje nem isqueiro Zippo entra.

Vale a pena lembrar que o metanol é um combustí­vel tóxico que penetra no corpo humano pela pele, vias respiratórias e digestivas, podendo levar í  cegueira total ou parcial e até mesmo í  morte.

Não confunda o metanol com “etanol”, o nosso bom e velho álcool de cana, que também não deveria ser consumido em excesso.

Ainda resta a questão de como comercializar o combustí­vel e o seu custo para o usuário final.

O metanol em si é relativamente barato, mas se juntarmos os custos de produção, de enchimento e distribuição do cartucho, além de outras despesas menores, seu preço final dificilmente será muito baixo, podendo até repetir a história dos cartuchos de jato de tinta.

O grande paradoxo

Bom… Até aqui, nenhuma novidade.

O que andei filosofando nesses últimos dias é que o modelo de negócios da célula de combustí­vel parece ser o mesmo das atuais baterias descartáveis – como as pilhas alcalinas que usamos em nossos eletrônicos portáteis e outros brinquedos.

O grande paradoxo é que os usuários quando possí­vel, preferem substituir as pilhas alcalinas pelas versões recarregáveis de NiCad ou mesmo de í­ons de Lí­tio, exatamente aquelas que a célula de combustí­vel pretende substituir.

Isso ocorre por uma questão econômica. Não que elas sejam mais em conta, e sim porque as recarregáveis tiram proveito de uma fonte de energia amplamente disponí­vel, ilimitada e praticamente de graça.

E quem pensou no astro-rei, errou!

Estou falando da tomada elétrica dos outros.

Ao contrário do cartucho de combustí­vel, que vai ter de ser comprado Deus-sabe-aonde ou Deus-sabe-a-que-preço, nos dias de hoje, os usuários de notebook precisam apenas de uma tomada* de bobeira – como aquelas que existem nas empresas, centros de convenções, salões de hotéis, aeroportos e até na casa do vizinho – para recarregar suas baterias a custo zero, sem o menor constrangimento em fazer isso.

O curioso é que os donos dessas tomadas parecem não esquentar a cabeça com isso, apesar de se esquentarem muuuito – até chamando a polí­cia – caso peguem alguém tirando gasolina de seus carros.

Com essa moleza dando sopa em qualquer lugar a qualquer momento, quem vai querer gastar dinheiro numa célula de combustí­vel que consome cartuchos de metanol?

*e de um adaptador se estiver na Europa. :^)

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.