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CDF passa a perna no ODF

lotus_logo.jpgNo iní­cio desta semana, eu participei de um interessante workshop sobre as novas soluções da Lotus Software, atualmente uma divisão da IBM, onde estiveram presentes vários executivos do grupo, entre eles Ricardo Rossi (gerente de vendas), Mário Costa (gerente técnico) e até mesmo Marco Bravo, diretor de Software Group da IBM Brasil.

Entre as várias – e interessantí­ssimas – soluções de software de colaboração, de compartilhamento de conteúdo e de redes sociais para corporações mostradas, um dos produtos que pode interessar mais ao público em geral é o Lotus Symphony, um pacote de aplicativos de escritório formado pelo Symphony Documents (processador de textos), Symphony Spreadsheets (planilha eletrônica) e o Symphony Presentations (apresentações comerciais).

Qualquer semelhança com um produto vendido por uma empresa de Redmond não é mera coincidência.

Segundo o pessoal da IBM, o Lotus Symphony é uma versão aberta dessas mesmas ferramentas de produtividade que já fazem parte do Lotus Notes 8 e que está sendo oferecido para o público em geral como download gratuito.

Atualmente na versão Beta 3, o Lotus Symphony é baseado no Open Office e já roda nas plataformas Windows e Linux, com previsão de que a versão final – inclusive em português – deve ser lançada no ano que vem (2008), junto com a versão para Mac. O beta pode ser baixado aqui.

A idéia por trás do Symphony é de oferecer para o mercado uma solução compatí­vel com ODF (Open Document File) um formato de documentos baseado em padrões abertos e que foi recentemente aprovado pela ISO como padrão, o que já é meio caminho para se tornar um padrão universal, isto é, se o mercado perceber que o ODF existe e se interessar em adotá-lo.

Segundo Costa, a grande vantagem do ODF é que a descrição de seu formato é totalmente aberto e público, o que facilita o desenvolvimento de aplicações compatí­veis, ao contrário dos documentos gerados pelo MS Office onde partes do documento é formado por pequenos trechos de código proprietário, que o pessoal de Redmond pode mudar a qualquer hora.

Esse por sinal, é uma ótima estratégia para azucrinar a vida dos concorrentes que, de algum modo, precisam oferecer compatibilidade com os padrões de documento do Office que quiserem sobreviver nesse negócio.

Essa dependência do mercado aos formatos do Office, transformou esse produto numa verdadeira mina de ouro para o pessoal de Redmond ao ponto deles não terem pena de cobrar R$ 1.300 por um produto cujas pessoas nem exploram boa parte de seus recursos. E por causa disso, a concorrência notou que a melhor estratégia para reverter esse cenário não estava no aplicativo, e sim, na adoção de um formato de arquivo aberto e público – que seria a essência do ODF.

Assim, o padrão ODF assume os contornos de uma guerra filosófica – no melhor estilo “conquistar corações e mentes” – que para dar certo, é necessário que os vários setores do mercado e até mesmo o público em geral, saia do comodismo de não mexer naquilo que funciona para abraçar um novo formato.

O Império Contra-Ataca

Como era de se esperar, o pessoal de Redmond não iria deixar a concorrência melar sua boca rica e propôs seu próprio padrão aberto chamado OpenXML, já implementado do Office 2007.

Segundo a IBM, a estratégia da Microsoft foi de aprovar seu formato como norma, junto a Ecma International, resultando no padrão Ecma 376 publicado em dezembro de 2006. Com isso, a empresa usou essa certificação para tentar aprovar a toque de caixa o OpenXML também como norma ISO, aparentemente sem muito sucesso.

No Brasil, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) também não comprou a idéia. E quando tudo parecia estar í  favor do mocinho no filme, numa reviravolta espetacular, a Computerworld noticiou ontem (30/10) que o Open Document Foundation, grupo criado para promover o ODF está abandonando o apoio de seu próprio padrão em favor de uma nova especificação mais amigável aos padrões da Microsoft.

Batizado de CDF (Compound Document Formats), o novo formato é baseado em um conjunto de especificações desenvolvidas pelo World Wide Web Consortium (W3C).

A matéria cita um post feito no blog de Sam Hiser, VP e diretor de negócios corporativos da OpenDocument Foundation, onde ele afirma que seu grupo acha CDF é um formato mais viável: “Representantes da fundação têm se decepcionado com a direção de desenvolvimento do padrão neste ano”. “Achamos que o ODF não é o formato aberto com processos abertos que pensávamos que ele seria”, fuzilou Hister.

Para o executivo, as exigências de um formato universal precisa incluir total compatibilidade com os formatos do Microsoft Office, incluindo o Office OpenXML, o que seria o caso do CDF.

Em uma outra entrevista, Hister disse que o ODF começou a perder o apoio com seu grupo desde fevereiro do ano passado, quando a Sun Microsystems – um dos maiores defensores do ODF – mostrou estar mais interessado em fazer o StarOffice mais compatí­vel com o MS Office do que fazer o ODF funcionar.

Sob esse ponto de vista, a estratégia da IBM em oferecer o Lotus Symphony gratuitamente para o mercado começa a ter algum sentido, já que, como OpenOffice é baseado no StarOffice da Sun, seria melhor garantir o deles (= suporte da IBM ao ODF) – com um produto próprio – antes que alguém vá lá e mexa em algo, sem avisá-los.

Quem viver, verá.

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.