ZTOP

ZTOP no Japão (ou there and back again)

Enquanto a mídia especializada volta suas atenções para a Computex em Taiwan na próxima semana — metade deste ZTOP + ZUMO bota o pé num avião para a mesma direção, porém vamos descer um ponto antes — ou mais exatamente na Terra do Sol Nascente.

A convite da Canon, vou visitar a sede da empresa em Tóquio e algumas paradas nas regiões de Osaka e Oita. Será uma interessante jornada pelo país e oportunidade única para conhecer uma das maiores empresas de imaging do mundo que — como muitas companhias japonesas — enfrenta hoje grandes desafios, sejam eles naturais como o grande terremoto do Leste do Japão ou mesmo provocados pelo homem, como as mudanças de um mercado consumidor cada vez mais arisco, dinâmico, conectado e ávido por informações visuais que podem não vir de uma câmera convencional.

Canon_HQ

Dito isso, senta que lá vem história:

As origens da Canon vem dos anos 1920~30, época em que Goro Yoshida, um técnico de manutenção de câmeras de cinema, teve a idéia de criar sua própria câmera 35 mm depois de desmontar  uma Leica Modelo II para estudar seu funcionamento e constatou que “não havia diamantes dentro dela”, apenas peças de de alumínio, bronze, ferro e borracha — ou seja, nada de especial que justificasse o seu preço exorbitante (por sinal, praticado até hoje). De fato reza a lenda que numa das suas viagens para comprar peças em Xangai, ele teve uma conversa com um distribuidor americano chamado Roy E. Delay que lhe disse mais ou menos os seguinte:

Por que é que você vem aqui comprar componentes? (…) Se seu País já produz bons aviões e navios, não há porque você não consiga fazer suas próprias peças?

Assim, em 1933 Yoshida, junto com seu cunhado Saburo Uchida e Takeo Maeda, fundou a Precision Optical Instruments Laboratory com o objetivo de criar uma câmera 35 mm de alta qualidade comparável aos melhores modelos da época fabricadas pela Leitz e Zeiss-Ikon. Já no ano seguinte, um protótipo foi apresentado numa revista com o nome de “Kwanon” — uma deusa budista da piedade absoluta venerada por Yoshida, cuja homenagem também se estendia a sua lente “Kasyapa” cujo nome veio de Mahakasyapa, um discípulo de Buda. O curioso é que a imagem dessa divindade também foi usada no primeiro logo da empresa:

Canon_old_logo

Segundo o Canon Camera Museum, embora diversos anúncios em revistas da época mostrarem pelo menos três variações dessa câmera, nenhuma delas realmente chegou ao mercado e, apesar de Yoshida afirmar que ele completou pelo menos dez câmeras Kwanon, elas nunca foram vistas (= vaporware?). Um exemplar descrito como “Kwanon model D” foi descoberta em 1955 em Osaka, mas pairam dúvidas sobre sua autenticidade. Outro modelo apareceu no mercado em 2006 (abaixo) e foi arrematado num leilão em Boston por US$ 138.000, mas a polêmica persiste ao ponto da própria Canon não ter se interessado em adquiri-la.

Kwanon_D

Mas apesar de todos os esforços da empresa para colocar seu produto no mercado, nesta época ela ainda não fabricava suas próprias lentes e medidores de distância (= telêmetros), o que levou Yoshida  a procurar a Nippon Kogaku Kogyo (antigo nome da Nikon).

Na época, a Nippon Kogaku já era a maior empresa de óptica do Japão, mas se dedicava apenas a fabricação de equipamentos militares (como os impressionantes medidores de distância dos navios de guerra Yamato e Musashi ) e viu na proposta de Yoshida uma oportunidade interessante para entrar no mercado “civil” de consumo. O curioso é que acordo teve uma ajuda do irmão de Uchida — Ryonosuke — que tinha trabalhado como auditor lá e apresentou a Precision Optical para Toyotaro Hori, na época VP executivo e membro do conselho da Nippon Kogaku.

Assim foi acordado que a Nippon Kogaku forneceria o telêmetro e a lente — por sinal uma Nikkor de 50mm/f3.5 — enquanto que a Precision Optical seria responsável pelo resto, incluindo a montagem. Daí surgiu a primeira câmera comercial da empresa já com um novo nome — a Hansa Canon — de 1936 (embaixo). Note o contador de frames na parte da frente e o visor de enquadramento no topo da câmera que se retrai quando fora de uso, características por sinal presentes no suposto Model D acima:

Hansa_canon

A Hansa Canon (1936) — A primeira câmera comercial da empresa, desenvolvida em parceria com a Nippon Kogaku (atual Nikon) o que explica o uso de uma lente Nikkor 50 mm /f3.5 (uia!)

Com o fim da segunda grande guerra, a Canon reiniciou suas atividades introduzindo a chamada série II formada pelos modelos SII e JII que nada mais eram que cópias da Leica IIIc que com o passar o tempo recebeu pequenas modificações/melhorias resultando em mais de 33 modelos (ou variações do mesmo tema) até o fim da sua produção em 1968.

Aqui na Zumo Caverna temos um modelo IIB de 1949~52 que, ao contrário da Leica IIIc onde o rangefinder é independente do visor de enquadramento (ou seja, o fotógrafo tem que olhar no telêmetro, ajustar o foco e depois olhar no visor para enquadrar e bater a foto) na IIB é possível focar e enquadrar no mesmo visor, facilitando assim o seu uso. 🙂

Canon_IIb

Mas já em 1956 a empresa iniciou uma mudança significativa na sua linha de produtos com a chegada da série V que podemos considerar as primeiras Canon de personalidade própria e que foram consideradas as câmeras com baioneta LTM mais avançadas do mercado, até a chegada dos modelos Voigtlander fabicados pela Cosina no ínicio dos anos 2.000.

canonV

No segmento amador, em 1961 a empresa lança a Canonet, a primeira de uma bem sucedida linha de câmeras mainstream de lente fixa e exposição automática. A propósito, também temos uma aqui na Zumo-caverna…

Canon_Canonet

… assim como uma Canonet QL17 G-III de 1972, que vendeu mais de 1,2 milhão de unidades até sair de linha em 1981. Devido a qualidade na sua construção, óptica sublime e recursos avançados, ela é considerada uma das melhores relações de custo/benefício para aqueles que desejam ingressar no mundo da fotografia clássica sem gastar muito.

Canon_Canonet_QL17a

E com o boom econômico do Japão nas decadas seguintes, a Canon entrou em outros segmentos de mercado como o de calculadoras eletrônicas, impressoras (pessoais, corporativas e de grande formato), sistemas de documentação eletrônica, filmadoras/camcorders, sistemas médicos, ópticos e equipamentos industriais para o segmento de alta tecnologia. O curioso é que a Canon chegou até a comercializar computadores da linha MSX e o notório Canon CAT (que muitos afirmam ser o Macintosh original criado por Jeff Raskin antes dele levar uma bica do Jobs).

Canon_Cat

E é claro, a Canon continuou a expandir sua linha de câmeras, lançando a sua primeira SLR Canonflex em 1959 que adotou uma baioneta de desenho próprio que evoluiu para o padrão FL/FD nas décadas posteriores. Um produto de destaque nos anos 1960 foi a Canon Pellix, sua primeira SLR com baioneta FL a usar um espelho fixo semi-transparente, cuja idéia original era de permitir a fotometragem através da lente (TTL), mas que foi consagrada em modelos posteriores (como a Canon EOS RT) por permitir tirar mais fotos em sequência, já que o movimento de vai e vem do espelho não atrapalha as exposições.

Canon_pellix

A entrada de fato no mercado profissional  ocorreu durante a década de 1970 com a chegada Canon F1/F1n, seguida pela New F1 (embaixo) …

Canon_New_F1

…e a antológica T90 (embaixo) todos modelos de foco manual com baioneta FD que bateram de frente com a rainha do pedaço da época: as Nikon F3/F4.

Canon_T90

Esse cenário só começou a se inverter com a chegada da linha EOS/baioneta EF em 1987 que colocou a Canon na frente da concorrência no quesito velocidade/precisão de autofoco, tornando-se assim referência de mercado entre os fotógrafos esportivos.

canon_eos_1dx

Mais recentemente, a Canon começa a explorar novas fronteiras, em especial no segmento de filmagem digital para cinema com a Canon EOS C300/C300 PL de 2011/2012:

Canon_C300

Pela nossa experiência com esse tipo de evento organizado por japoneses, teremos uma agenda bem variada porém bem cheia e controlada à risca com precisão de minutos. Assim não podemos garantir muitos posts in loco, mas faremos o que for possível, além de enviar algumas fotos de bastidores pelo Instagram.

Fiquem ligados!

Disclaimer: Mario Nagano viaja ao Japão a convite da Canon, mas todas as opiniões e fotos bacanas são dele.

Ainda em tempo:

Uma faceta pouco conhecida entre os ocidentais (fora os antigos funcionários da IBM) é que muitas firmas japonesas tem seu próprio hino da companhia — músicas criadas para unir, inspirar e levantar a moral de uma força de trabalho que, após a guerra, ainda estava meio abalada com a derrota  — mas que tinham a oportunidade de recuperar o seu orgulho perdido ajudando a construir uma grande empresa e, de quebra, um grande País.

Segundo a Canon, existe pelo menos quatro versões desse hino. Este é um deles:

Aa— sugoi né?

 

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.